

GULA

O Clube dos Anjos

Lus Fernando Verssimo



        Orelhas do livro:


        Nenhum deles pode resistir a tentao. Sentar-se  mesa com os amigos, saborear seu prato preferido e se entregar ao prazer de comer, louca e apaixonada-mente.
Depois? Depois a morte, mas isso s parecia acentuar, naquele instante, a delcia de sabores irrecusveis, o paladar em estado de exaltao, a beno de um destino 
escolhido.
        O humor genial de Lus Fernando Verssimo faz de O Clube dos Anjos uma aventura to envolvente como a amizade entre aqueles homens - dez, e nunca mais que 
dez, at que a morte ou as mulheres os separassem. Tudo comeou com um picadinho de carne com farofa e banana frita. Foi em volta de uma mesa adolescente que eles 
passaram a se reunir, at que os jantares se tornaram cada vez mais requintados - e sempre mensais, durante 21 anos.
        Eles tinham em comum uma afinidade animal e tambm o exerccio de uma arte nica: a gastronomia como prazer cultural e desafio filosfico. At que um perverso 
e misterioso cozinheiro apareceu - ou teria sido Daniel, o narrador, o autor intelectual dos crimes aqui descritos?
        
        
        Escritor e jornalista, Lus Fernando Verssimo mantm uma coluna diria no Jornal do Brasil, reproduzida para diversos jornais do pas.
        Autor de vrios livros, entre eles os best-sellers O Analista de Bag, Comdias da Vida Privada e Comdias da Vida Pblica, Verssimo tem obras adaptadas 
para teatro, cinema e televiso. Entre as distines e prmios recebidos, esto a Medalha de Resistncia Chico Mendes, o Prmio de Iseno Jornalstica e o de Intelectual 
do Ano em 97.
        
        
        Contra-capa:
        
        No  todo dia que se quer ouvir uma crocante fuga de Bach, ou amar uma suculenta mulher, mas todos os dias se quer comer. A fome  o nico desejo reincidente, 
pois a viso acaba, a audio acaba, o sexo acaba, o poder acaba - mas a fome continua.
        O Clube dos Anjos, de Lus Fernando Verssimo,  uma inslita e bem-humorada celebrao da gula, na srie Plenos Pecados. O livro conta a histria de dez 
homens que se entregaram a essa afinidade animal, a fome em bando - sem temer a morte. Na verdade, a perspectiva de morrer s aumentaria, para eles, o prazer na 
comida. E o desafio filosfico na gastronomia: a apreciao que exige a destruio do apreciado.
        
        
        
        Plenos Pecados
        
        Luis Fernando Verissimo
        
        O Clube dos Anjos
        
        1998 by Lus Fernando Verssimo
        
        
        Capa e projeto grfico
        Victor Burton
        Ilustrao da capa
        "Gukla", de Beatriz Milhazes
        Coordenao editorial: Isa Pessa
        Reviso: Tereza de Ftima da Rocha / Izabel Cristina Aleixo
        Editorao eletrnica
        Abreu's Systenn Ltda
        
        
        
        Todo desejo  um desejo de morte
        Possvel mxima japonesa
        
        
        
     
     1
     O Encontro
        
        
        
        Lucdio no  um dos 117 nomes do Diabo, nem eu o conjurei de qualquer profundeza para nos castigar. Quando falei nele para o grupo pela primeira vez, algum 
disse "Voc est inventando!" Mas sou inocente, at onde um autor pode ser inocente. As histrias de mistrio so sempre tediosas buscas de um culpado, quando est 
claro que O Encontro o culpado  sempre o mesmo. No  preciso olhar a ltima pgina, leitor, o nome est na capa: e o autor. Neste caso, voc pode suspeitar que 
sou mais do que o autor intelectual dos crimes descritos. Que meus dedos no se limitaram  sua dana ttrica nos teclados, mas tambm derramaram o veneno na comida, 
e que interferi na trama mais do que  o direito dos autores. As suspeitas se baseiam na lgica, ou na lgica peculiar das histrias de mistrio. Se s um estiver 
vivo no fim, eis o criminoso. Se dois estiverem vivos mas um  inventado, o outro  o criminoso. Eu e Lucdio somos os nicos sobreviventes desta histria, e se 
eu no o inventei, e como so poucas as probabilidades de ele ter me inventado, o claro culpado  ele, j que era o cozinheiro e todos morreram, de uma forma ou 
de outra, do que comeram. Se o inventei, a culpa  toda minha. No posso nem alegar que, se Lucdio  inventado, toda a histria  inventada, e portanto no h crimes 
nem culpados. Fico no  atenuante. Imaginao no  desculpa. Todos ns matamos em pensamento mas s o autor, esse monstro, pe seus crimes no papel, e os publica. 
Se no matei meus nove confrades e irmos em obsesso, sou culpado da fico de t-los matado. 
        Preciso convencer voc que no inventei o Lucdio para provar que sou inocente desses terrveis crimes. E preciso convenc-lo que a histria  verdadeira 
para provar que sou inocente da fico. O crime inventado  pior do que o crime real. Pois se o crime real pode ser acidental, ou fruto de uma paixo momentnea, 
no h notcia de um crime fictcio que no tenha sido premeditado.
        
        Posso dar hora, dia, ms e local do nosso primeiro encontro.
        Se quiser testemunhas, procure os funcionrios da importadora. Eles me conhecem, gasto uma pequena fortuna em vinhos na loja deles, todos os meses. Perguntem 
pelo Dr. Daniel, o gordo que gosta de vinhos Saint-Estphe. No sou doutor, sou rico, por isso me chamam de doutor.
        Eles devem ter notado o contraste entre Lucdio e eu, quando ele se aproximou de mim no setor dos Bordeaux, em fevereiro. H exatamente nove meses. Ele  
magro, baixo, com uma cabea grande desproporcional ao corpo, e extremamente elegante. Est sempre de terno e gravata. Eu sou alto e corpulento, uso camisas largas 
para fora das calas e j fui visto de alpargatas no Ducasse de Paris. Os funcionrios devem ter notado e comentado o contraste. E lhe diro que a loja estava vazia 
e que comeamos a conversar na frente dos Bordeaux e percorremos toda a loja juntos, e nos chilenos j parecamos velhos amigos. Talvez se lembrem que eu comprei 
um Cahors, que normalmente no compraria, por indicao dele. E que samos juntos da loja. Fomos vistos. Lucdio existe. Juro. Pergunte na loja.
        
        Os funcionrios da loja no sabem que depois fomos tomar um caf, ali no shopping mesmo, e sentamos para conversar mais um pouco, j que nossos interesses 
combinavam tanto. Comida e bebida, no passamos destes naquele primeiro encontro. Ele move-se com discrio e faz poucos gestos. Senta com as costas retas e quase 
no mexe a cabea. Eu nunca chego, simplesmente, numa cadeira ou numa mesa, eu atraco. Um processo difcil, na falta de rebocadores. Naquele dia, derrubei um aucareiro 
e quase derrubei a mesa e deixei cair o vinho antes de encontrar minha posio na cadeira e chamar a garonete. Minha namorada, a coitada da Lvia, sempre diz que 
eu nunca sei de quanto espao preciso, e que isso vem de uma infncia de gordo mimado. Algo a ver com ser um filho nico que nunca conheceu limites. A coitada da 
Lvia  psicloga e nutricionista, h anos que tenta me salvar. Eu no sou o seu amante, sou a sua causa. J tive trs mulheres e as trs queriam o meu dinheiro. 
A Lvia no quer o meu dinheiro. Quer ser a mulher que me recuperar, o que eu acho muito mais interesseiro e assustador. Talvez por isso eu resista tanto a casar 
com ela, quando no resisti nada a casar com as outras, mesmo sabendo que no me amavam pela minha barriga. Vivemos separados, mas ela cuida da minha casa e das 
minhas roupas e tenta, inutilmente, cuidar da minha alimentao. Tenho certeza que, se pudesse, limitaria meu alimento ao leite dos seus peitos e a fibras, muitas 
fibras. Tambm falo alto e demais, outro efeito de uma infncia sem limites. Lvia me convenceu que toda a tragdia da minha vida se deve  falta de algum que um 
dia dissesse: "Daniel, chega!"
        
        Me lembro que quase s eu falei naquele primeiro encontro com o Lucdio. Contei do nosso clube. Disse o nome de todos que compunham o clube, e a cada nome 
o Lucdio dizia "Ah" ou "Mmm", para mostrar que estava impressionado. Afinal, eu citara nove das famlias mais conhecidas do estado. No fim disse o meu sobrenome, 
que tambm o impressionou. Ou pelo menos ele fez outro rudo de reconhecimento, sempre com seu meio sorriso apertado. Curiosamente, Lucdio nunca mostra os dentes.
        
        No. Ele disse "Eu sei"! Agora me lembro. Quando eu disse o meu nome completo, Daniel e o sobrenome, ele disse "Eu sei"! O que j provava, voc deve estar 
pensando, que o encontro no tinha sido casual.
        Mas ele podia ter me reconhecido de alguma fotografia. Anos atrs, quando o Ramos comandava nossas vidas, saa muita coisa a nosso respeito na imprensa. 
Na crnica social ou em revistas especializadas em comida e bebida. Ele podia nos conhecer de fotografias, conhecer os dez de fotografias e reputao. Continuvamos 
a nos reunir uma vez por ms para comer. Dez meses por ano, de maro a dezembro. Cada vez na casa de um, que era o responsvel pelo jantar. Naquele maro, comearamos 
outra temporada, e eu estava encarregado do primeiro jantar do ano. Mas era possvel que a temporada no comeasse. Lucdio quis saber por qu.
        - O grupo est acabando. Acabou o teso.
        - H quantos anos vocs se renem?
        - Vinte e um. Vinte e dois, este ano.
        - Sempre o mesmo grupo?
        - Sim. No. Um morreu e foi substitudo. So sempre dez.
        - Vocs tm todos mais ou menos a mesma idade?
        Se Lucdio estivesse fazendo anotaes em cima daquela mesa de caf, isto no destoaria do tom das suas perguntas. Mas na hora eu no notei o tom de questionrio. 
Contei tudo. Contei a histria do Clube do Picadinho. Lucdio s interrompia seu sorriso de boca fechada para dizer "Ah" ou "Mmm".
        
        ramos todos mais ou menos da mesma idade. Todos mais ou menos ricos, se bem que nossas fortunas tinham fludo e refludo em vinte anos. Eram fortunas herdadas, 
sujeitas s inconstncias do carter e do mercado. A minha tinha sobrevivido a trs casamentos desastrosos e a uma vida dedicada a histrias estranhas, que coleciono, 
e ao cio desajeitado, mas s porque tenho um pai que me paga para no incluir os negcios da famlia no meu permetro de destruio. ramos todos da mesma idade, 
fora o Ramos, e da mesma classe. E fora o Samuel e o Ramos, tnhamos nos criado juntos. Pedro, Paulo, Saulo, Marcos, Tiago, Joo, Abel, eu. De reunies quase dirias 
no bar do Alberi, na adolescncia, e do picadinho de carne com farofa de ovo e banana frita do Alberi que durante anos definiu o nosso gosto culinrio, tnhamos 
progredido para jantares semanais em restaurantes diferentes, depois para reunies mensais na casa de cada um. E com o tempo e as prelees do Ramos, tnhamos refinado 
o nosso gosto. Embora o Samuel insistisse que nada na vida se igualava  banana frita.
        - O anfitrio sempre cozinha?
        - No necessariamente. Pode cozinhar, pode servir comida feita por outro. Mas  o responsvel pela qualidade do jantar. E pelos vinhos.
        - O que aconteceu? No entendi.
        - O que aconteceu?
        - O teso. Voc disse que acabou o teso.
        - Ah, . Foi. Acho que com a morte do Ramos... Ramos foi o que morreu. Era o nosso organizador. Fez os estatutos, mandou imprimir papel timbrado, os cartes, 
at desenhou o braso do clube. Levava a coisa a srio. Depois que ele morreu...
        - De Aids.
        - E. A coisa mudou. O ltimo jantar do ano passado foi uma tristeza. Era como se ningum mais agentasse ver a cara do outro. Foi na casa do Kid Chocolate. 
Do Tiago. A comida estava tima, mas o jantar acabou mal. Deu at briga entre as mulheres. E isso que era o ltimo jantar do ano, que  sempre especial. Perto do 
Natal. Acho que nos dois ltimos anos, depois da morte do Ramos...
        - Vocs foram perdendo a motivao.
        - A motivao, o saco, o tesao...
        - Tudo menos a fome.
        - Tudo menos a fome.
        Estava comeando o movimento da noite no shopping. Pedimos mais dois cafs. Enchi o meu de acar, como sempre, derramando algum em volta do pires. Quando 
eu vi, estava contando no apenas a lenta desagregao do nosso grupo mas a biografia da nossa fome. O que acontecera com ela e conosco em vinte e um anos.
        
        No incio, no era apenas o prazer de comer, beber e estar juntos que nos unia. Havia a ostentao, sim. Depois que trocamos o picadinho do Alberi por coisas 
mais finas, nossos jantares passaram a ser rituais de poder, mesmo que no soubssemos ento. Podamos comer e beber bem, por isso comamos e bebamos do melhor 
e fazamos questo de ser vistos e ouvidos no exerccio do nosso privilgio. Mas tambm no era s isso. No ramos s filhos da puta. ramos diferentes, e festejvamos 
a nossa amizade e a nossa singularidade naquelas celebraes barulhentas de um gosto comum. Tnhamos um discernimento superior da vida e dos seus sabores, o que 
nos unia mesmo era a certeza de que nossa fome representava todos os apetites que um dia nos dariam o mundo. ramos to vorazes, no comeo, que qualquer coisa menos 
que o mundo equivaleria a um coito interrompido. Queramos o mundo, acabamos como fracassados municipais, cada um na sua merda particular. Mas me adianto, me adianto. 
Pra, Daniel. Ainda estamos no caf do shopping, e eu estou derramando a minha vida na mesa, diante do Lucdio, junto com o acar.
        
        Na noite em que o Ramos decidiu formalizar a fundao do Clube do Picadinho, em honra ao nosso passado de gourmands ignorantes, eu, o Marcos e o Saulo tnhamos 
recm fundado a agncia, depois que convenci meu pai que meus dias de vagabundagem estavam acabados e eu merecia um financiamento, ou pelo menos vrios anos de mesadas 
adiantadas, para ter meu prprio negcio. Estvamos cheios de planos, em pouco tempo seramos estrelas no mercado publicitrio. O Marcos com a sua arte, eu com os 
meus textos e o Saulo com seu talento para relacionamento, vendas e enrolao criativa. O Paulo se elegera vereador. Tinha idias de esquerda que destoavam do seu 
saldo bancrio e do nosso convvio, nos chamava a todos de reacionrios de merda, mas era brilhante. Sabamos que teria uma bela carreira poltica, dentro das restries 
da poca, ajudado pelo fato de ter um irmo no DOPS. Tiago comeava a fazer seu nome como arquiteto. Pedro finalmente assumira a direo na indstria da famlia, 
depois de passar um ano na Europa com a Mara, por quem ns todos ramos apaixonados, numa lua-de-mel que se estendera por vrias luas apesar dos apelos da famlia 
para que voltassem. Joo, nosso esperto Joo, que nos ensinava a aplicar no mercado de capitais e era o nosso supridor de charutos e anedotas, comeava a ganhar 
dinheiro "obscenamente", na palavra do Samuel. Abel, nosso bom e emotivo jesuta especialista em grelhados, tinha recm-deixado o escritrio de advocacia do pai 
para abrir seu prprio escritrio. Como o Pedro, tambm estava recm-casado. Sua euforia, na poca, era uma mistura da culpa que sentia por ter se livrado da dominao 
do pai, do entusiasmo pelo novo escritrio e do choque sexual da unio com a Norinha. Que, ele no sabia, j tinha dormido com dois do grupo, e inclusive apanhado 
do Samuel. Era Abel que s vezes interrompia nossas autocelebraes para dizer "Pessoal: momento mgico. Momento mgico!", sempre estragando, claro, a mgica do 
momento. O que Samuel atribua  necessidade de epifanias constantes que sobrara do seu passado religioso.
        
        Samuel. O melhor e o pior entre ns. O que mais comia e o que nunca engordou. O que mais nos amava e mais nos insultava, e cuja palavra preferida era "crpula", 
usada para definir todo mundo, desde "O esse crpula" para chamar o garom at "Santo Crpula" para o papa. O mais lcido e o mais obsessivo de todos - e o que morreu 
por ltimo, morreu na minha frente, este ms, e morreu pior. E finalmente o Ramos. O que nos convenceu que a nossa fome no era s fome fsica, que ramos iluminados, 
que a nossa voracidade era a santa voracidade de uma gerao, ou que pelo menos no ramos filhos da puta completos. Ramos fazia os discursos nas nossas reunies, 
"Os sermes do crpula-mor", como dizia o Samuel. Tudo comeara com ele. Foi ele que transformou um dos nossos jantares normais numa solenidade, e inaugurou o clube 
"com os dez que esto nesta mesa, e nunca mais do que estes dez", at que a morte ou as mulheres nos separassem. Depois molhou pedaos de po no vinho para que todos 
os mastigassem em conjunto e engolissem, valendo o gesto como um voto sagrado de adeso, uma cerimnia que comoveu muito ao Abel pela sua aluso eucarstica.
        
        No comeo, Ramos era o nico gourmet autntico do grupo. Ele nos catequizou, ps ordem e estilo na nossa fome. Nos convenceu que a primeira deciso do Clube 
do Picadinho deveria ser a de renunciar ao picadinho do Alberi como parmetro de valor gastronmico para sempre. 
        Houve resistncia.
        Durante muitos anos, sempre que queria irritar o Ramos, Samuel defendia o valor da banana frita. Mas Samuel comia qualquer coisa. E, suspeitvamos, qualquer 
um. Ramos nos ensinou que estvamos exercendo uma arte nica, que a gastronomia era um prazer cultural como nenhum outro, pois nenhum outro trazia aquele desafio 
filosfico: a apreciao exigia a destruio do apreciado, venerao e deglutio se confundiam, nenhum outro ato se igualava a comer como exemplo de percepo sensorial 
de uma arte, qualquer arte, salvo, ele imaginava, passar a mo na bunda do Davi de Michelangelo. Ele tinha vivido algum tempo em Paris e foi dele a idia das nossas 
excurses  Europa, com visitas a restaurantes famosos e vinhedos, que ele mesmo organizava, com meticulosidade "tpica de veado", segundo Samuel. E foi dele a advertncia 
que quando deixssemos as mulheres participar do clube, tudo desandaria.
        Aqueles dez e nunca mais do que aqueles dez, ou o encanto se perderia e estaramos condenados. Tambm foi um profeta. Queria lhe mostrar meus vinhos. Mas 
queria continuar contando nossa histria. Sei l por qu.
        No jantar do Natal o Samuel tinha dito uma frase em latim, do Satyricon.
        No fim das contas, tudo  naufrgio. Algo assim. Lucdio tinha me encontrado em meio ao naufrgio, quase submerso, s com a boca para fora, e com a loquacidade 
desesperada dos moribundos. Eu precisava contar a tragdia da minha vida e da vida dos meus amigos e finalmente tinha encontrado um ouvinte atento. E algum que 
no me recomendaria fibras, muitas fibras.
        
        S muito depois me dei conta de uma coisa. Como o Lucdio sabia que o Ramos tinha morrido de Aids? Ele no sabia, fora s um palpite?
        Ele conhecia o Ramos e a causa da sua morte, e deixara escapar por distrao? Ou estava me dando a primeira pista, a razo de ter entrado nas nossas vidas 
para nos envenenar?
        No sei por que contei tudo isso para algum que mal conhecia.
        Talvez porque nunca antes tivera um ouvinte to atento. Lucdio estava imvel, as mos juntas postas sobre a mesa como um embrulho bem-feito que ele s desfazia 
para tomar outro gole de caf. O meio sorriso com os lbios fechados nunca deixou seu rosto. Estava ficando tarde. Eu precisava voltar para casa e telefonar para 
Lvia, que se preocupava com aquelas minhas idas ao shopping sozinho. Eu morava perto, ia e voltava a p, ela dizia que com meu tamanho e dificuldade de movimentos 
s no era assaltado na rua porque os assaltantes desconfiavam Era fcil demais, eu devia ser uma armadilha. Convidei o Lucdio para ir ao meu apartamento.
        Queria lhe mostrar meus vinhos. Mas queria continuar contando nossa histria. Sei l por qu. No jantar do Natal o Samuel tinha dito uma frase em latim, 
do Satyricon. No fim das contas, tudo  naufrgio. Algo assim. Lucdio tinha me encontrado em meio ao naufrgio, quase submerso, s com a boca para fora, e com a 
loquacidade desesperada dos moribundos. Eu precisava contar a tragdia da minha vida e da vida dos meus amigos e finalmente tinha encontrado um ouvinte atento. E 
algum que no me recomendaria fibras, muitas fibras.
        
        S muito depois me dei conta de uma coisa. Como o Lucdio sabia que o Ramos tinha morrido de Aids? Ele no sabia, fora s um palpite?
        Ele conhecia o Ramos e a causa da sua morte, e deixara escapar por distrao? Ou estava me dando a primeira pista, a razo de ter entrado nas nossas vidas 
para nos envenenar?
        
        
        
     2
     A Escama
        
        As vezes penso que fiz no meu apartamento o que gostaria de fazer no meu crebro. Renunciei a tudo que atravanca. So dois sales imensos to vazios que 
parecem preparados para um baile, que nunca sai. 
        Dois compridos sofs brancos contra paredes brancas, em ngulo, cho de parqu nu e cortinas beges nos janeles, minha nica concesso  cor. Ou  Lvia. 
E so. Quando os jantares do grupo so, eram, no meu apartamento eu colocava a grande mesa no centro do salo maior. No resto do ano a grande mesa fica desmontada 
e as cadeiras empilhadas na rea de servio e eu como na mesa da cozinha. Lucdio examinou tudo com seu meio sorriso e ficou em silncio. O nico comentrio adequado 
aos meus grandes sales vazios.
        
        J no escritrio, com suas paredes forradas de madeira de alto a baixo, fiz o possvel para imitar a casa de um casal de esquilos, lembrada da ilustrao 
de um livro infantil que por toda a vida foi meu parmetro de clida domesticidade. E como se eu tambm vivesse dentro do tronco de uma rvore numa floresta nrdica 
e me alimentasse de nozes armazenadas para o inverno, e sei que todos os meus casamentos deram errado porque nenhuma das trs mulheres entendeu que seu papel na 
minha vida era a de Mame Esquilo. At os abajures so de madeira nodosa, como os do sr. e da sra. Esquilo. Tudo o que eu quero est aqui, numa desarrumao que 
resiste a repetidas incurses civlizadoras da Lvia.
        Jornais e revistas espalhados pelo cho. Meus copos. Meus conhaques e armangnacs. Meus charutos. Enfim, minhas nozes. E meu computador, no qual escrevo as 
bobagens que tanto assustam a Lvia, como a interminvel histria das xifpagas lsbicas, e no qual escrevo isto, neste momento, e espero a segunda vinda do sr. 
Spector. Mas me adianto, me adianto. No meu tronco de rvore tambm esto minha televiso, meu videocassete, minhas fitas, meu som, meus discos, tudo o que preciso 
para resistir ao stio da neve e dos lobos. Livros, poucos. S alguns sobre gastronomia e vinhos, e sobre publicidade, nunca udos, dos tempos da agncia que abri 
com o Marcos e o Saulo, e que fechou em oito meses. Do nosso grupo, s o Ramos lia muito. Tiago lia e relia os livros policiais que comprava compulsivamente e que 
abarrotavam sua casa. Paulo, depois que renunciara ao marxismo e deixara a poltica para trabalhar na empresa do Pedro, no lia mais nada. No sei de onde o Samuel 
tirava sua cultura, ou a erudio que usava  para insultar, como na vez em que comparara a dor do Abel depois do seu divrcio da Norinha com a dor de Filoctetes, 
cuja ferida aberta e supurante tanto incomodava seus companheiros da Odissia que eles o abandonaram numa ilha deserta. "Nos poupe do seu fedor, Filoctetes", dizia 
Samuel para o lamuriento Abel, enquanto ns tentvamos consol-lo. Mas foi para Samuel, em longas noites de bar e calada, que Abel despejou sua mgoa e sua raiva 
at purgar a Norinha da sua vida. "Nada como um confessionrio, mesmo para um catlico relapso", dissera Samuel. Nunca vi Samuel com um livro. Como Ramos, que nunca 
nos permitiu nem um vislumbre da sua vida de homossexual, Samuel tinha uma vida intelectual que escondia da turma.
        
        No meu escritrio, a nica decorao so os quadros do Marcos, dados pelo Saulo. Os horrveis quadros do Marcos esto por toda parte. O lugar de estantes 
 tomado por duas caves climatizadas para vinhos, que tambm mandei pintar com veios e ndoas para imitar madeira, como devia ser a cave dos esquilos. Numa das caves 
coloquei o Cahors comprado na importadora e da mesma cave retirei um Ormes de Pez 82 para tomarmos naquele momento, apesar dos protestos do Lucdio. Quando eu estava 
abrindo o vinho o telefone tocou. Lvia. Eu tinha esquecido de ligar para ela e fazer meu relatrio do dia.
        - O que aconteceu?
        - Nada aconteceu.
        -  a terceira vez que eu telefono! Onde voc estava?
        - Nada. Fiquei conversando no shopping. Estou com um amigo aqui.
        - No  o Samuel!
        O terror de Lvia era o Samuel. O nico que visitava os outros regularmente entre os jantares e tentava manter o grupo unido e a nossa amizade viva, embora 
sua figura lgubre s servisse para lembrar o que o tempo tinha feito conosco. E embora sua nica preocupao durante as visitas fosse falar mal dos outros. Samuel 
conservava o apetite da sua juventude mas ficara ainda mais magro com o tempo. Suas olheiras e os dentes malcuidados lhe davam um aspecto de decadncia que ele fazia 
questo de ostentar, como que nos forando a encarar, nele, nossa prpria realidade. O corpo do Samuel estava vergado pelo nosso fracasso, seu rosto estava sulcado 
por todas as nossas promessas descumpridas. Vinte anos antes, nenhum de ns tinha sucesso com as mulheres como o misgino Samuel com seus olhos profundos e sua voz 
rouca. Nem o Paulo, que, segundo o Samuel, chamava o prprio pau de Cabo Eleitoral e o usava para recrutar eleitoras de qualquer idade e formato, em qualquer lugar 
ou ocasio, o crpula. Uma vez tnhamos sido obrigados a usar toda a nossa influncia coletiva para livrar Samuel da priso porque a mulher que ele surrara dera 
queixa  polcia e tinha parentes importantes. Pedro tinha argumentado que devamos deix-lo ir preso, para aprender. Talvez soubesse que, realizando o desejo de 
todo o grupo menos do Ramos, Samuel fora o nico que conseguira comer a sua mulher, a Mara da pele branca e dos cabelos escorridos. Vetamos a sugesto de um castigo 
exemplar para Samuel. O Clube do Picadinho cuidava dos seus. E no se tratava apenas de livrar o Samuel do processo. Tratava-se de testar o nosso poder na cidade. 
Samuel j me confessara que ficara impotente, que nem bater em mulher o excitava mais. E tambm ostentava a sua impotncia como uma condenao de tudo que tnhamos 
deixado escapar em vinte anos. "Foi por vocs, seus crpulas. Meu pau flcido  o Cristo deste grupo, desfalecido na cruz.
        Ele broxou por vocs!" A Lvia tinha certeza que Samuel era um verme maligno que queria puxar meu p e me arrastar para o seu labirinto subterrneo, perto 
do inferno e longe dela. "At o feitio dele  de um verme", dizia.
        - No, Lvia, no  o Samuel.
        - Quem , Zi?
        Zi, diminutivo de Zinho, diminutivo de Danielzinho. Encontrei minha me esquilo.
        - Voc no conhece.
        Quase disse que quem estava ali era, na verdade, um anti-Samuel.
        Um novo amigo muito bem-educado, simptico e elegante, com o que eu presumia fossem bons dentes, e que no oferecia perigo algum.
        Mal sabia eu.
        
        Foi naquela noite, fins de fevereiro do ano passado, que o Lucdio me mostrou a escama. Uma pequena escama de peixe plastificada, uns dois centmetros, com 
um ideograma pintado em branco no plstico, contrastando com o vermelho da escama no fundo. Ele a pescou de dentro da sua carteira, com cuidado. No sei se andava 
com a escama sempre na carteira ou se preparara aquele momento. Lucdio ergueu a escama na frente dos meus olhos e disse:
        - Sou o nico homem no hemisfrio ocidental que tem uma destas.
        - O que  isso?
        - Uma escama de fugu. Perteno a uma sociedade secreta que se rene uma vez por ano em Kushimoto, no Japo, para comer o fugu recm-pescado. Eu e um chins 
somos os nicos no-japoneses na sociedade. Ou ramos. O chins morreu na ltima reunio.
        - Como?
        - Envenenado, O fugu  um peixe venenoso. Se no for preparado por um especialista, treinado em cortar o peixe de uma determinada maneira, pode matar em 
minutos, O chins morreu em oito. E uma morte horrvel.
        Eu sorri. Acho que sorri. Para testar se aquilo era uma brincadeira. Mas o meio sorriso do Lucdio tinha desaparecido. No era brincadeira. Ele continuou:
        - O treinamento de um preparador de fugu leva trs anos. Todos os anos a sociedade faz uma prova, uma espcie de exame final, para saber quem receber o 
ttulo de mestre do fugu.  sempre uma turma de dez alunos. Cada aluno testa o fugu recm-pescado que preparou para a prova num voluntrio. Se o peixe estiver mal 
preparado, o voluntrio morre na hora. Em minutos.
        - E o aluno?
        - Repete o ano. Os voluntrios formam a sociedade...
        - Exato. Uma sociedade de dez. Como o ndice de reprovao do curso  de trinta por cento e morrem em mdia trs voluntrios em cada prova, a renovao  
constante. Mas existe uma lista de espera para entrar na sociedade. Eu tive que esperar sete anos.
        - O voluntrio ganha alguma coisa para participar da prova?
        Ele sorriu. Desta vez quase um sorriso inteiro.
        - Eu no esperava uma pergunta dessas de voc...
        - Ento, por qu...
        - No existe nada parecido com o sabor do fugu cru no mundo, Daniel. E o prazer de comer o fugu  triplicado pelo risco da morte. A perspectiva de morrer 
a qualquer momento, em segundos, produz uma reao qumica que reala o sabor do fugu. Voc pode comer o fugu normalmente, no Japo, preparado por mestres especializados, 
com um risco mnimo. Mas s em Kushimoto, uma vez por ano, come o fugu com uma real possibilidade de no sobreviver ao primeiro pedao. No existe outra experincia 
gastronmica igual. Por isso a sociedade  secreta.  o clube de gourmets mais exclusivo do mundo. E, oficialmente, a tal prova no existe.
        - Como voc a descobriu?
        - Disse a um amigo japons que eu j provara tudo que havia para provar, que no esperava ter qualquer experincia gastronmica nova antes de morrer. E ele 
disse "Quer apostar?" Curiosamente, nos conhecemos por acaso, numa loja de vinhos. Ele fazia parte da sociedade?
        - Sim. Por ironia, entrei no lugar dele. Ele morreu feliz. Tinha duas escamas.
        - Duas escamas?
        - Quem sobrevive a dez reunies, dez anos, ganha uma escama como esta. Ele teve vinte anos de fugu com o tempero do medo.
        - O que est escrito no plstico?
        - E um ideograma japons, com vrias tradues possveis. Pode ser  "Todo desejo  um desejo de morte" ou "A fome  um cocheiro sem ouvidos" ou "O sbio 
e o louco usam os mesmos dentes".
        - Tudo isso num ideograma?
        - Sabe como so os orientais.
        - De quantas provas voc j participou?
        - Dezessete.
        Lucdio inclinou-se para a frente, como se fosse fazer uma confidncia.
        - E cada vez o teso  maior.
        Tomamos duas garrafas de Ormes de Pez e vrios copos de conhaque mas em nenhum momento Lucdio perdeu sua pose rgida e seu semi-sorriso solcito, ou sequer 
afrouxou a gravata. Quando eu disse que estava com fome ele se prontificou a fazer uma omelete, e fez uma omelete como havia tempos eu no provava. Fostada s at 
o ponto da perfeio por fora, mida por dentro, espalhando-se no prato com a consistncia de uma baba dos deuses. Aprendera a fazer em Paris, onde morara durante 
algum tempo. Falamos por mais de uma hora sobre omeletes e seus segredos.
        Perguntei qual era a sua especialidade na cozinha, alm da omelete, e ele disse que se dedicava  cozinha clssica francesa e, entre muitas outras coisas, 
fazia um gigot d'agneau respeitvel. No me lembro se eu disse que, por coincidncia, aquele era o meu prato favorito! Agora sei que no foi coincidncia. Falei 
na minha preocupao com o primeiro jantar da temporada do Clube do Picadinho, que seria no ms seguinte, sob a minha responsabilidade. Era um jantar importante. 
Aquele seria o ano em que o Clube se reergueria da sua depresso ps-Ramos ou acabaria para sempre. Depois do desastrado jantar de Natal na casa do Tiago, talvez 
fosse at difcil reunir os dez em torno de uma mesa, e mais as mulheres. Em vinte e um anos, os dez membros do grupo tinham tido exatas vinte mulheres, contando 
as minhas trs e Gisela, a adolescente que o Abel adotara depois do divrcio da Norinha, e as duas do Pedro depois da Mara, incluindo uma que tivera uma crise de 
choro ao encontrar o Samuel, que obviamente j conhecia. Que eu soubesse, naquele momento seis estavam com mulheres. A Lvia se recusava a participar dos jantares 
e vrias vezes me pedira para deixar o grupo, e aproveitar o rompimento como ponto de partida para uma dieta sria e uma tentativa de reorganizar minha vida. At, 
se eu quisesse, de voltar a trabalhar ou publicar minhas histrias estranhas.
        
        Lucdio se ofereceu para me ajudar no jantar. Aceitei, principalmente porque queria apresent-lo aos outros. Ele disse no, no, preferia nem aparecer. Afinal, 
no fazia parte do Clube. Ficaria na cozinha. Sugeri que ele fizesse o gigot d'agneau mas ele disse uma coisa que, na ocasio, me intrigou.
        - No, esse fica para o fim.
        E saiu pela cozinha a fazer um inventrio das minhas panelas.
        
        Cinco minutos depois do Lucdio sair do apartamento, recusando minha oferta de chamar um txi ("Moro perto") e apertando minha mo com uma pequena reverncia 
formal de ps juntos, apesar da intimidade que eu julgara j termos atingido, a Lvia telefonou. Sempre me ligava no fim da noite, para saber o que eu tinha comido 
e se os lobos no tinham atacado.
        - Quem  que estava a, Zi?
        - Depois eu te conto.
        - Era uma mulher?
        - No. Depois eu te conto.
        Quem era, mesmo, que estivera ali?
        Antes de sair, depois de anotar o nmero do meu telefone, Lucdio pedira permisso para me dar um conselho. Sobre o nosso jantar.
        - Claro. Fala.
        - No convide as mulheres.
        
        
        
        
     3
      O Primeiro Jantar
        
        No dia seguinte um telefonema do Lucdio. Comeou a se identificar, "O da ornei..." e eu o interrompi. 
        "Sim, sim, como vai?" Ele disse que estava providenciando os ingredientes para o jantar, embora ainda faltassem duas semanas. J sabia o que ia fazer. Um 
boeuf bourguignon.
        - O Abel vai gostar. E o prato favorito dele.
        - Eu sei.
        Ele disse "eu sei"?
        No sei. Perguntou se eu tinha alguma coisa na cozinha, um certo utenslio de que ia precisar, e eu respondi que sim. Depois perguntou qual era o esquema 
do servio no jantar, haveria algum para ajudar?
        Respondi que minha madrasta mandaria gente da casa dela. Ele disse que preferia trabalhar sozinho. Ele cozinharia e eu serviria. Eu disse "Tudo bem".
        Disse que queria pagar pelos ingredientes que ele estava comprando.
        Ele: "Depois a gente acerta". E depois:
        - Voc j falou com os outros?
        - Ainda no.
        - Comece pelo Abel.
        Era s o que me faltava. Outra Lvia para me dar ordens e tentar organizar minha vida. Mas confesso que sua intromisso me agradava. Era um tipo interessante, 
apesar da sua formalidade e daquele maldito sorriso fixo. Eu mal podia esperar a hora de apresent-lo aos outros e ver a reao deles  histria do fugu e da sociedade 
secreta. Que outras histrias ele no teria para contar? Adoro histrias estranhas. Quanto mais improvveis, mais eu acredito. E seria bom no precisar enfrentar 
o primeiro jantar da nova temporada sozinho, e ter aquela novidade para apresentar aos confrades. Talvez fosse mesmo o que estivesse nos faltando. Talvez Lucdio 
reorganizasse todas as nossas vidas. Um homem que arriscava a sua pelo sabor de um peixe mortal era o que precisvamos para nos arrancar daquela espiral de amargura 
e recriminaes mtuas em que a morte do Ramos nos lanara, e nos devolver o sentido da nossa unio. Afinal, ramos gastrnomos, no uma ordem religiosa cada em 
dvidas ou uma gerao amaldioada. Mesmo que a histria do fugu fosse inventada, era uma inspirao. E o seu jantar seria timo, se se pudesse julgar algum por 
uma omelete.
        
        Comecei pelo Abel. Que, como eu esperava, no mostrou muito entusiasmo pela continuao do Clube.
        - No sei, Daniel. Quem sabe a gente d um tempo este ano?
        - Abel...
        - Aquela ltima reunio foi dolorosa.
        - O prato principal vai ser boeuf bourguignon, Abel.
        - Ah, ?
        No foi preciso muito mais para convenc-lo.
        - Voc faz aquela sua sobremesa? A de banana?
        - Fao, Abel.
        - Nove horas?
        - Como sempre.
        Depois telefonei para o Joo, que tambm relutou. Talvez fosse, talvez no fosse. Estava pensando em deixar o Clube. A reunio do Natal tinha lhe mostrado 
que estava na hora de parar. "Seno vou acabar dando um soco no Paulo". Em vinte e um anos, Joo s faltara s reunies do Clube durante o tempo em que desaparecera 
para fugir de pessoas cujo dinheiro tinha perdido e que queriam mat-lo, no que s mostravam, segundo Samuel, uma chocante incompreenso do esprito capitalista. 
        Samuel instrua os credores a quebrar vrios ossos do Joo, menos os que lhe permitiriam recuperar seu dinheiro, em vez de mat-lo. E chegava a oferecer 
uma lista dos ossos que Joo no precisaria para ganhar dinheiro e pagar a todos. Mas fora ele quem mais ajudara o Joo, inclusive escondendo-o dos credores furiosos 
em sua casa. De onde nos trazia notcias peridicas do asilado. "Est de timo humor. No consigo convencio a se suicidar". E completava com uma das suas citaes 
obscuras: "Um dos maiores enganos da humanidade a seu prprio respeito  que existe o remorso
        - Vamos fazer mais uma tentativa, Joo - insisti. - Afinal so vinte e um anos.
        - No sei...
        Joo chegara a um acordo com os credores, depois do seu asilo na casa de Samuel. Mas no se regenerara. Era um mentiroso desde garoto e usava seu talento 
nato para tirar dinheiro das pessoas e depois explicar por que o dinheiro desaparecera. Aquele fora apenas o primeiro de muitos perodos difceis que tinham acabado 
com seu casamento e com seu bom nome mas no com seu bom humor e a sua capacidade de contar anedotas. Na noss reunio do Natal o Paulo tinha gritado "No!" quando 
Joo comeara a contar mais uma anedota e o acusara de ser um retrato perfeito da elite brasileira, que atravessava todas as runas, inclusive a sua, brandindo a 
prpria inconseqncia como um salvo-conduto, como uma absolvio prvia, e dissera que mais uma anedota das suas naquele momento seria uma monstruosidade. J que 
ele no procurava a contrio, que ao menos no contasse anedotas. Ao que Joo respondera dizendo que pelo menos no era um comunista que acabara lambendo os sapatos 
do Pedro, nosso grande industrial, e defendendo sua empresa contra grevistas com a mesma veemncia com que atacava o capital nos tempos de deputado. Abel tentara 
acalm-los e tambm ouvira um desabafo do Paulo, que no agentava mais aquele tom de santo de quem era, sabidamente, um dos advogados mais espertos e canalhas do 
estado e ainda por cima pedfilo, e a discusso acabara com a Gisela correndo atrs do Paulo para esfregar na sua cara a carteira de identidade que provava que tinha 
dezoito anos completos. No fim Samuel citara uma frase em latim, "Si recte calculum pon as, ubique nau fragium es?', e, diante da expectativa agressiva dos outros, 
impacientes com a sua maldita erudio, a traduzira. "Se se fizerem as contas certas, o naufrgio  em toda parte. Petronius, Satyricon." Depois de um longo silncio, 
Paulo dissera "V se foder voc tambm, Samuel". E Samuel erguera seu copo e dissera "Feliz Natal para voc tambm, Paulo".
        A reunio terminara com a nova mulher do Paulo e a jovem Gisela quase trocando socos.
        - Nove horas, Joo.
        - Vamos ver.
        
        Depois do maldito jantar de Natal, ficramos eu, Paulo e sua mulher e Tiago, o dono da casa, fazendo o post-mortem da noite, completamente bbados. Paulo 
apertara meu rosto entre suas mos e dissera:
        - O que que eu fiz da minha vida, Casco? O que que eu fiz da minha vida?
        Eu mal conseguia manter os olhos abertos. A mulher do Paulo dormia num sof. Tiago danava com uma garrafa de conhaque apertada contra o peito. Tiago, o 
Kid Chocolate. O nico do grupo que era quase to gordo quanto eu.
        - Eu sou um merda! - gritara Paulo, sem largar o meu rosto.
        - Merda sou eu! - gritara o Tiago. - Sabe o que que eu sou?
        - Merda sou eu! - insistira Paulo.
        - Sabe o que eu sou? Um fracassado. Pronto.
        - Merda sou eu!
        - Eu sou um merda fracassado. Sou mais merda que voce.
        Paulo largara meu rosto e agarrara a cabea de Tiago.
        - Eu sou mais merda do que vocs todos!
        - Porqu?
        - Porque eu era melhor do que vocs todos. Eu era o melhor de todos! Pra vocs chegarem a merda, no precisou muito. Eu, sim, tive que cair. Eu  que sou 
mais merda.
        Tiago viera apertar meu rosto e pedir minha opinio, depois de jogar a garrafa de conhaque longe.
        - Daniel, quem  o mais merda?
        Mas eu no estava em condies de fazer um julgamento objetivo.
        Eramos todos merdas. Anos antes, correra o boato de que Paulo entregara antigos companheiros seus que estavam na clandestinidade ao DOPS. Nunca quisemos 
saber se era verdade, O Clube do Picadinho protegia os seus.
        
        Para minha surpresa, vieram todos ao primeiro jantar da nova fase. O Lucdio me pedira o endereo de cada um e mandara a todos o menu, feito num computador 
com muito bom gosto, inclusive com a ilustrao de uma vinheta antiga, e embaixo uma frase dizendo que o jantar seria s para homens. Desde a morte do Ramos no 
fazamos nada to requintado. Durante duas semanas Lucdio entrara e sara do meu apartamento, sempre formal e elegante, preparando tudo para a grande noite, cuidando 
de cada detalhe com a dedicao de um manaco, mas um discreto manaco com mtodo. Felizmente, nenhuma das suas visitas coincidiu com uma das visitas de inspeo 
da Lvia. Pensando bem, at hoje, a Lvia nunca viu o Lucdio. No dia do jantar ele chegou s sete da manh e passou o dia inteiro na cozinha. Na qual, obedecendo 
a sua orientao, eu s entraria uma vez, para preparar minha sobremesa de banana. Foi quando vi que ele cozinhava enrolado num grande avental que chegava quase 
at o cho e com um toque profissional na cabea. Mas de gravata.
        
        O primeiro a chegar foi Andr, que entrara para o Clube no lugar do Ramos. Tinha um laboratrio farmacutico, talvez fosse, de todos ns, o mais rico, depois 
dos ltimos problemas financeiros do Joo e da quase falncia da indstria do Pedro. Em dois anos de participao no Clube no conseguira se integrar no grupo e 
tinha um certo pnico da verbosidade do Paulo, da agressividade do Samuel e da nossa crescente tendncia para o caos. Fora proposto ao grupo pelo Saulo, que cuidava 
das relaes pblicas da sua empresa, e nos recebera para jantar no seu palacete por duas vezes, servindo paelia, sua especialidade, nas duas. Era um homem fino, 
tmido, mais velho do que todos ns. Sua mulher tinha a pele do rosto esticada por vrias operaes plsticas e no jantar de Natal na casa do Tiago reagira com indignao 
a uma referncia do Samuel ao seu marido, at o Andr explicar que "crpula", no caso, era um termo carinhoso. Era crpula no bom sentido. O pobre do Andr entrara 
para o grupo esperando encontrar o convvio ameno de pessoas civilizadas, "e creme de e creme como dissera sua mulher ao nos conhecer, errando o artigo, e se vira 
no meio de um interminvel festim de ressentidos, sob o olhar aflito do Saulo, preocupado com a repercusso do nosso destempero nos seus negcios. No sei por que 
Andr no tinha abandonado o grupo. Nem a comida compensava seu evidente desconforto no nosso meio, pois os jantares ficavam progressivamente piores  medida que 
nosso desentendimento aumentava. 
        Mas, segundo o Saulo, que senso crtico se poderia esperar de algum cujo padro culinrio era a paeila? Gostei do menu impresso - disse Andr.
        Pouco depois chegou o Samuel abanando o menu.
        - De quem  esta frescura? Parece coisa do Ramos.
        Joo e Paulo chegaram ao mesmo tempo, por coincidncia. Era bvio que no tinham se falado no elevador. Joo ficou no salo e Paulo foi para o escritrio. 
No queria conversa com ningum. Tiago tambm chegou soturno e atirou-se num dos sofs. Saulo e Marcos chegaram juntos como sempre e Saulo avisou que talvez tivesse 
que sair mais cedo. A primeira coisa que Abel perguntou ao chegar foi se Paulo tinha vindo, pois preferia ficar longe dele. Disse que s comparecera por minha causa, 
porque o jantar era meu, pois estava pensando seriamente em deixar o grupo. O ltimo a chegar foi Pedro, precedido pelo perfume da sua loo. Ele morava com a me 
e havia uma sria desconfiana de que a dona Nina ainda lhe dava banho todos os dias. Quando Pedro entrou estava parte do grupo no escritrio, olhando a televiso 
sem se falar e os outros espalhados pelos dois sofs brancos do salo, tristes e quietos, como que resignados ao fato de que ningum os tiraria para danar. Se eu 
tivesse que escolher um quadro para resumir o fim melanclico do Clube do Picadinho, seria aquele. S Andr e eu conversvamos, ele por nervosismo e eu por cortesia 
e compulso.
        Depois que Pedro chegou convoquei todos para o salo e fui buscar o champanhe. Na cozinha, Lucdio apontou a grande bandeja de canaps que preparara e me 
ordenou que viesse busc-la depois de servir o champanhe. 
        No salo, fizemos os nossos brindes de costume, contrafeitos. Primeiro " fome". Depois "Ao Ramos". Samuel props um terceiro, "Ao nosso calor humano", que 
s Andr acompanhou, at se dar conta de que era ironia. 
        Fui buscar a bandeja de canaps e ofereci a cada um. Paulo perguntou quem estava preparando a comida, j que o aroma que vinha da cozinha prometia. Comecei 
a dizer que era uma surpresa mas parei, pois tinha visto o rosto de Joo. Joo acabara de engolir um dos canaps do Lucdio.
        
        Dizer que um rosto se ilumina  uma conveno literria. Mas o rosto de Joo se iluminara. O rosto mudara de cor com o prazer. Hoje, quando penso naquele 
primeiro jantar e nas suas conseqncias  daquele instante que me lembro com mais nitidez. Me emocionei com a emoo do Joo, e isso me emociona agora. Pela primeira 
vez em muitos anos eu recapturara aquele sentimento, de prazer no prazer de um amigo, e pensei: ainda podemos recorrer do tempo, este grupo ainda pode ser salvo, 
eu ainda posso ser salvo. Nem tudo, afinal, era naufrgio. No sei se o Joo era o mais filho da puta de todos ns.
        Depende de critrios subjetivos, que mudam a cada gerao. Naquele instante pensei no Joo vinte e um anos antes, quando ainda no aprendera que as anedotas 
perdiam o efeito se ele comeasse a rir antes de contar o fim, sendo soqueado por todo o grupo na mesa para interromper seu acesso de riso e finalmente aplaudido 
por todo o restaurante quando conseguira expelir a frase final da anedota, "E minha batina no  de bronze!" Olhei para o Abel. Pobre Abel. Naquele instante, to 
extasiado que, como o Joo, no conseguia falar. Foi Pedro quem disse "Que maravilha este canap!" seguido de "ums" e "iams" de aprovao de todos. Provei o canap. 
Era de cebola e queijo gratinados, mas no podia ser s cebola e queijo gratinados. Fosse o que fosse, a iluminao do rosto do Joo e a expresso beatfica de Abel 
estavam explicadas. Quando Abel finalmente conseguiu falar, foi para dizer "Momento mgico! Momento mgico!"
        
        Todo o jantar foi uma maravilha. Depois dos canaps, fundos de alcachofra ao vinaigretre. E quando eu trouxe o boeufbourguignon da cozinha, provocando um 
"Meu Deus do cu" do Abel ao avist-lo, fui recebido com uma ruidosa reivindicao da mesa entusiasmada. Queriam saber quem era o cozinheiro misterioso. Contei quem 
era o Lucdio, ou o pouco que sabia dele. Nosso encontro na loja de vinhos. A sua omelete perfeita, que me levara a aceitar sua oferta de cozinhar para o grupo. 
E a sua histria do fugu e da sociedade secreta. Algum disse "Esse cara no existe, voc est inventando!" Paulo disse que tinha lido alguma coisa sobre a tal sociedade, 
mas num livro de fico. "Histria", disse Pedro, com a boca cheia de carne. "O cara est te gozando." Tiago disse que o Lucdio podia ser um farsante, podia at 
ser uma inveno minha, mas era um grande cozinheiro. Marcos disse "O homem  um gnio!" e insistiu que eu o trouxesse da cozinha para ele provar que existia e receber 
os aplausos do grupo. "Calma, calma", respondi, sem qualquer inteno de sair do meu lugar antes de terminar o que era o melhor boeufbourguignon que j tinha provado 
na vida. Abel mastigava de olhos fechados. Mais de uma vez repetiu "Meu Deus do cu" e, quando terminou de comer, declarou solenemente "Eu agora posso morrer", provocando 
gargalhadas. As gargalhadas mais altas foram do Paulo. O grupo estava reconciliado. Lucdio nos resgatara do fundo.
        
        Na cozinha, Lucdio me informou que sobrara bouef bourguignon para mais um prato, apenas mais um prato. Transmiti a informao  mesa. 
        Quem queria repetir? Alguns nem responderam, s gemeram, para dizer que no podiam mais. Mas Abel disse:
        - No resisto. Quero mais.
        E eu trouxe da cozinha o prato com mais boeufbourguignon e coloquei na sua frente, sob aplausos da mesa. Abel esvaziou o prato em segundos.
        
        Eu no economizara os meus Bordeaux para aquele jantar especial.
        Quando trouxe a sobremesa da cozinha, com o anncio de que nosso cozinheiro em seguida faria sua apario, havia um halo de prazer quase palpvel pairando 
sobre o grupo em torno da mesa. Minha sobremesa de banana no decepcionou e foi extravagantemente elogiada. "Que jantar!", exclamou Marcos, e Joo saiu do seu lugar 
para me dar um beijo no topo da cabea. "Pena o Ramos no estar aqui", disse Abel, com lgrimas nos olhos, e todos concordaram. Servi o caf e trouxe os conhaques 
e os charutos. Era a hora do Ramos. O momento em que ele invariavelmente levantava-se para falar, segurando o copo de conhaque numa mo e o charuto na mo que usava 
para os seus gestos teatrais.
        Depois da sua morte, ningum tomara o lugar de orador naquele instante de plenitude, que nunca mais tinha sido o mesmo. Certa vez, dez anos antes, o Ramos 
se erguera e ficara um longo tempo nos olhando, com afeto, antes de falar. Nos olhara um por um, como se nos abenoasse. 
        Depois dissera: "Guardem este momento. Um dia nos lembraremos dele e diremos: foi o nosso melhor momento. Compararemos outros momentos das nossas vidas com 
ele e diremos que nunca mais fomos assim, exatamente assim. Nos saciaremos de novo, por certo, pois essa  a bno do apetite. No  todo dia que se quer ver um 
pastoso Van Gogh ou ouvir uma crocante fuga de Bach, ou amar uma suculenta mulher, mas todos os dias se quer comer, a fome  o desejo reincidente, o nico desejo 
reincidente, pois a viso acaba, a audio acaba, o sexo acaba, o poder acaba mas a fome continua, e se um fastio de Ravel  para sempre, um fastio de pastel no 
dura um dia." Em vez de "Ravel" e "pastel" ele talvez tenha dito "Pachebel" e "bechaniel", estou citando de memria. Ramos: "Mas mesmo saciados, nunca mais estaremos 
saciados como agora, cheios das nossas prprias virtudes e do nosso prazer na amizade, na comida e na vida e no conhaque." E ele erguera seu copo, fazendo com que 
todos erguessem o seu. "Senhores, exultai. Estamos no nosso pice." Todos beberam. Depois ele dissera: "Senhores, chorai.
        Comeou o nosso declnio." E todos beberam, mais alegres ainda. Naquela noite s samos da mesa s cinco da manh.
        
        Abel levantou-se. Pela primeira vez depois da morte do Ramos, algum ia fazer um discurso na hora do conhaque.
        - Eu s quero dizer uma coisa, Daniel. Sobre o seu jantar.
        Ficamos na expectativa. Abel enfatizou bem cada palavra.
        - Puta que os pariu!
        Todos aplaudiram. Andr estava emocionado. Tnhamos recuperado nosso fascnio aos seus olhos. Aquilo, sim, era o Clube do Picadinho de que ele ouvira falar. 
Os copos de conhaque se ergueram na direo de Abel. De certa maneira, ele repetira o Discurso da Plenitude do Ramos.
        Tilvez no reconquistssemos o nosso pice, dez anos depois da bno do Ramos. Mas tnhamos chegado perto outra vez. Perto do nosso melhor momento, perto 
das nossas vidas perdidas, e perto do Ramos. Era isso que Abel tinha dito, em resumo. Pobre Abel. O primeiro a morrer, como na Bblia.
        
        Meses mais tarde, depois da sexta morte, depois do velrio de julho, eu comentei com Samuel a frase que Lucdio tinha dito quando finalmente fizera sua apario 
triunfal no salo, naquela noite, sob vivas do grupo. Joo sara do seu lugar, se ajoelhara na frente de Lucdio e dissera que queria beijar as suas mos. E Lucdio 
dissera:
        - Deixe-me limp-las primeiro, elas cheiram a mortalidade.
        - Foi uma citao - disse Samuel. - Shakespeare. Rei Lear.
        Maldito Samuel.
        
        
        
     
     4
      A Teoria do Cio
        
        Minha madrasta me fornece empregados sempre que preciso. Sei que ela e Lva tm reunies peridicas para tratar da minha vida. Ela tem um certo pnico da 
minha presena acho que so minhas sandlias e prefere fazer sua parte a distncia, destacando efetivos da sua tropa de manuteno e limpeza para me ajudar conforme 
minhas necessidades.
        Tnhamos comLinado que ela mandaria gente para lavar os pratos, limpar a cozinha e arrumar o apartamento na manh depois do primeiro jantar. Fui fisgado 
do fundo do meu sono pelo zumbido do interfone e trazido lentamente  superfcie, como um peixe difcil. Ainda estava zonzo depois de abrir a porta para as duas 
moas assustadas que fizeram o possvel para no olhar a minha cueca aberta quando o telefone tocou, Lvia querendo saber como tinha sido o jantar.
        - timo. Uma maravilha. O melhor boeufbourguignon da minha vida.
        Contei como tudo tinha sado bem. O clima. As reconciliaes. O sucesso do Lucdio no grupo. A conversa at de madrugada. A animao geral. Para desnimo 
da Lvia, que desligou o telefone resignada. Suas preces no tinham dado resultado. O Clube do Picadinho adquirira nova vida, e continuaria.
        Eu me preparava para mergulhar de novo no sono quando o telefone tocou outra vez. Era Tiago. Acabara de ter a notcia da Gisela. Abel estava morto.
        
        Estavam todos no velrio, menos Andr. Gisela chorava no meio de uma penca de mulheres desconhecidas. Sua famlia, provavelmente. No sabamos de onde o 
Abel tinha tirado a Gisela. No sabamos nada da Gisela. Ela nunca se impressionara muito conosco, nos tratava com um certo desdm, e uma vez chocara todo o grupo 
trazendo um bife  milanesa com pur de batata num prato coberto para um dos nossos jantares, dizendo que estava cansada de comida metida a besta. Procurei os pais 
de Abel com o olhar e no os encontrei. Abel tinha brigado com o pai quando deixara o seu escritrio e a me nunca o perdoara por ter abandonado a Igreja. Norinha 
estava l, abraada com o filho dela e do Abel. O filho  um pouco mais moo do que a Gisela. Os seis irmos de Abel estavam espalhados pela capela. Nenhum se aproximou 
de ns. Samuel parecia mais sombrio que nunca. Como sempre, cuidara de tudo. Quando o Ramos estava morrendo, at ns, acostumados com suas contradies e sua crueldade, 
tnhamos reagido  insensibilidade do Samuel. "No visito puto", dissera, para explicar por que no visitara Ramos no hospital, no seu ltimo dia de vida. Mas fora 
ele que tratara do enterro do Ramos, e suas olheiras e os sulcos do seu rosto tinham aumentado com o desconsolo, depois do enterro. Quando comecei a testar teorias 
sobre a morte de todo o grupo, cheguei a pensar que Samuel fora deixado para o fim para poder administrar os enterros e registrar a perda de cada um no seu rosto, 
como num papiro antigo.
        - Corao? - perguntei.
        - Acho que sim - disse Samuel. - Ele j devia ter um problema e nunca nos contou. A Lolita diz que ele comeou a passar mal de madrugada. Vomitou, o diabo. 
No quis que chamassem mdico. Aposto que morreu em cima dela, o crpula.
        - A comida no foi - disse Saulo. - Ns todos comemos a mesma coisa e eu no senti nada. Algum sentiu alguma coisa?
        Ningum tinha sentido nada. Era verdade que ningum comera tanto quanto o Abel, e ningum dormira com a Gisela depois. Devia ter sido o corao. Mesmo assim, 
sa  procura de um telefone e liguei para o Andr. No, ele no sentira nada. No sabia da morte do Abel, no tinham lhe avisado, que desgraa, tentaria chegar 
a tempo para o enterro no fim da tarde. Eu disse que no precisava, o grupo estava bem representado.
        Ele disse que iria de qualquer maneira. E perguntou:
        - O jantar do ms que vem, sai?
        Na noite anterior tnhamos combinado que o prximo a oferecer o jantar seria Andr. Ele sugerira que o Lucdio fizesse o jantar. Ou a sugesto foi do prprio 
Lucdio? De qualquer maneira, a idia fora recebida com entusiasmo pelo grupo, e mais do que todos pelo pobre do Abel. 
        - Sai, sai - respondi.
        Em vinte e um anos, nunca tnhamos cancelado um jantar por motivo de morte. Nem da minha me. Nem do Ramos. No primeiro jantar depois da morte do Ramos seu 
lugar foi posto na mesa e eu repeti o seu Discurso do Cio, feito no jantar das trufas, ou o que me lembrava dele. 
        E desde ento nossos brindes com champanhe antes de cada jantar eram  fome, como sempre, e ao Ramos. O segundo jantar do Lucdio sairia, sim, e um brinde 
ao pobre do Abel seria acrescentado ao ritual do grupo ressuscitado. 
        
        Voltei para o grupo no velrio. Contei que o Andr estava bem e perguntei se havia alguma novidade, s para no ficar quieto. No sei ficar quieto. O Joo 
respondeu que Abel pulara do caixo, dera alguns passos de tango em volta da capela e se deitara de novo, mas fora isso nada. Do centro da sua guarda familiar, Gisela 
estava apontando para ns. Ouvi-a dizer: - Foi na casa daquele gordo.
        
        S eu e Samuel ficamos no velrio o tempo todo. Os outros saram e voltaram na hora do enterro. No meio da tarde a Lvia apareceu para saber se eu estava 
bem e no precisava de nada. No olhou nem para o defunto nem para Samuel, e foi embora. E de repente, com um rufar do meu corao, apareceu a Mara. Me beijou nas 
duas faces e ignorou o Samuel. A ltima vez que eu a vira fora no enterro do Ramos. Ela ficava mais linda a cada enterro. Acompanhei-a at a sada da capela e ela 
perguntou quem era aquele senhor que estava comigo, e ento me dei conta de que no reconhecera o Samuel.
        - Voc no conhece - respondi.
        - Viu s? - disse o Samuel. - Fingiu que no me viu.
        
        Quando chegou a hora do enterro, o pai e a me do Abel apareceram perfilados ao lado do caixo. Um padre preparavase para falar. Gisela estava com os calcanhares 
juntos e os braos abertos, como uma bailarina, amparada pelas presumveis mulheres da sua famlia. 
        Norinha atrs do filho, com as mos nos seus ombros. Deduzi que o padre era um velho conhecido da famlia. Ele disse que a vocao de Abel se perdera para 
a Igreja, mas que naquele momento seu esprito voltava para Ela, certamente contrito. A me de Abel fez que sim com a cabea, confirmando a informao. Pobre Abel.
        
        Quando passou por ns, abraada ao filho, Norinha no nos olhou. 
        Gisela nos olhou com raiva. O Clube do Picadinho tem um longo rastro de mulheres ressentidas atrs de si. Desmanchamos alguns casamentos. Mas aquela era 
a primeira vez que tnhamos matado um marido na mesa.
        
        Durante duas semanas, no tive qualquer notcia de Lucdio. Dera seu nmero de telefone ao Andr, para que se entendessem sobre o prximo jantar. Seria uma 
paella, isso ficara combinado na noite do primeiro jantar. Mas uma paella como jamais se vira na Espanha ou no Ocidente. 
        Segundo Lucdio, sua receita vinha de uma ilha do Oceano Indico, Colonizada pelos espanhis, onde a paella seguira outro destino e acabara completamente 
diferente da original, com a diferena concentrada, acima de tudo, no uso do alho e de um tipo de tempero, uma espcie de grama com gosto de limo s encontrada 
na tal ilha. Por sorte, Lucdio tinha o tempero em casa, alm de resmas do alho gigante de que precisava e que s crescia a Leste da frica. Quando, depois de duas 
semanas, ele me telefonou, perguntei, brincando, se algum daqueles ingredientes era venenoso, como o fugu. Em vez de responder, Lucdio disse:
        - Sinto muito pelo Abel.
        - Olha,  brincadeira.
        - Foi corao, no foi? O Andr me disse que foi corao.
        - Parece que sim. Sabe como , mulher nova...
        - Quero lhe pedir um favor.
        Lucdio no tem nenhum senso de humor. O sorriso  permanente, mas os lbios jamais se partem. Qual era o favor? Preferia fazer o segundo jantar no meu apartamento. 
J vira que na casa de Andr seria difcil. Sua mulher interviria. Ela j deixara claro para o marido que no daria posse absoluta da cozinha a Lucdio e reivindicava 
o poder de superviso das suas atividades, com direito a veto. Lucdio no conseguiria trabalhar nestas condies, ainda mais que a sua paeila, alm de escapar da 
sua especialidade, os clssicos franceses, envolvia procedimentos no convencionais para os quais minha cozinha estava mais bem aparelhada. Respondi que, se o Andr 
topasse, eu topava. Ficou acertado que o jantar seria do Andr, que pagaria por tudo e traria os vinhos, mas se realizaria nos meus sales vazios.
        Vieram todos. Andr chegou no fim da tarde, trazendo os vinhos.
        Lucdio deixou-o entrar na cozinha, mas s por cinco minutos, para inspecionar os ingredientes. Depois ficamos no escritrio enquanto Lucdio cozinhava, 
e Andr me fez muitas perguntas sobre o Abel. Eu o conhecia h muito tempo? Desde criana.
        Quase todos no grupo se conheciam desde a infncia. O Marcos e o Saulo eram meus vizinhos, moravam na mesma rua. Eram inseparveis. Ns os chamvamos de 
Os Xifpagos. Tiago, Pedro, Abel, Joo e Paulo moravam no mesmo bairro, - Na adolescncia, tinha havido uma certa disperso da turma. Abel vivia envolvido com a 
Igreja. No podamos contar com ele para qualquer tipo de sacanagem, e havia a suspeita de que fosse virgem.
        Nem a Milene, que todos comiam, ele queria conhecer, apesar da nossa insistncia. Paulo tornara-se lder estudantil e afastara-se do resto da turma, que 
desprezava a poltica. Pedro tambm aparecia pouco. Vivia enclausurado. No ia  escola, tinha professores particulares, estava sendo preparado para assumir a direo 
da empresa da famlia. Alm disso, sua me, a dona Nina, tinha a psicose do contgio. Sofria com a idia do seu Pedrinho tendo contato com as impurezas do mundo, 
entre as quais nos inclua. Principalmente eu, que no trouxera da infncia o apelido de Casco Falante sem merecimento. Quando vi a Mara com Pedro pela primeira 
vez, deduzi que ela tinha sido, escolhida pela dona Nina, para ser a mulher do seu filho. Ningum era mais branca ou parecia mais limpa/O Samuel se insinuara na 
turma, vindo ningum sabia de onde. No morava no bairro, nunca soubemos nada da sua fmlia. Sua entrada em nossas vidas se deu como Samuel Quatro Ovos, pois tinha 
sido flagrado pelo Saulo no bar do Alberi, que era uma espcie de sede informal da turma, comendo quatro ovos fritos de uma vez. A partir da, nossa admirao por 
aquele magro voraz nunca parou de crescer/Samuel no estudava e sabia tudo. No trabalhava e sempre tinha dinheiro. Jogava dadinho a dinheiro com uma turma mais 
velha, na sala de trs do bar do Alberi, e perdia mais do que ganhava. Bebia tanto quanto comia e usava drogas. Depois que ele dormiu com a Milene, ela no quis 
dar para mais ningum e vivia atras do Samuel, apesar das surras que nosso dolo lhe aplicava. E foi o Samuel que nos apresentou ao Ramos, anos mais tarde, quando 
a turma, convencida pelo Samuel de que era grande coisa, que era predestinada, trocara os picadinhos do bar do Alberi por jantares semanais em bons restaurantes. 
Foi quando o Abel, o Pedro e o Paulo, que no faziam parte do ncleo fundador da turma dos jantares - Tiago, o Kid Chocolate, Xifpagos, Casco Falante, Joo e Samuel 
-, se reintegraram ao grupo. Foi como se depois da nossa iniciao Samuel nos entregasse ao Ramos, para ele completar a educao dos nossos sentidos, e fazer a nossa 
legenda. Naquele tempo ainda pensvamos que seramos uma legenda, que esta cidade era pouco para o nosso apetite. Filhos da puta, sim, mas grandes filhos da puta, 
prncipes da puta. Sabamos pouco sobre o Ramos, tambm. Era mais velho do que ns. Vivia de rendas da famlia, era grande entendido em literatura inglesa e molhos, 
"Shakespeare and sauces" como nos dissera um dia, e sua relao com Samuel era um mistrio que nunca investigamos.
        
        Nossa passagem ritual da adolescncia para a maturidade se dera na mesa de um restaurante, quando Ramos nos explicara por que a carne bem passada deixava 
o reino das iguanas e entrava no reino das utilidades, como a sola de sapato. O que foi uma revoluo na vida de Abel, nosso piedoso assador. Segundo Samuel, foi 
ali que Abel comeou a perder a f. A revelao da superioridade do cru sobre o muito cozido funcionou como uma catequese ao contrrio para Abel. Havia uma incompatibilidade 
intrnseca entre a carne malpassada e a metafsica, e Abel optara pela carne sangrenta.
        No sei se o Andr estava muito interessado na minha recapitulaO afetiva ou se s queria mostrar seu sentimento pela morte do Abel. Depois que descobrira 
que ns no ramos, afinal, "le creme dele creme" ele no se interessava pelas nossas histrias e demonstrava at uma certa repulsa fsica, pelo esquerdismo histrinico 
do Paulo, pela decomposio do Samuel e pela minha barriga, nessa ordem decrescente de horrores. Agora lamento que no o deixei falar mais, naquela noite, enquanto 
espervamos os outros e, na cozinha, Lucdio preparava a ltima paella da sua vida!
        Memorvel paella. Precedida de brindes com champanha ao Ramos e ao Abel e de vieiras com uma delicada musse de salmo. Estvamos todos eufricos, apesar 
da morte do Abel. O primeiro jantar do Lucdio nos convencera que o Clube do Picadinho podia ser salvo pelo apetite, mesmo que no nos amssemos mais como antigamente 
e tivssemos jogado fora as nossas vidas. No se falou no Abel durante o jantar. Abel tinha sido restitudo aos santos da sua famlia, nos cabia preservar o que 
ainda estava vivo entre ns, o que fora salvo do naufrgio. A nossa afinidade animal, a nossa fome em bando, desde o tempo em que roncvamos juntos, como porcos, 
ao mastigar o picadinho do Alberi. S nos restara a fome em comum. Eu no parava de falar, mesmo com a boca cheia. Andr repetia que sentia sua mulher no estar 
ali, ela tinha sangue espanhol, o que no diria daquela paella diferente? At o Joo dizer que cortar as mulheres dos jantares tinha sido uma grande deciso. Uma 
sbia deciso. As mulheres eram as responsveis pelo nosso declnio. As mulheres tinham nos artancado do paraso, sem elas nossos rituais readquiriam sua pureza 
adolescente, ramos de novo os porcos contentes do bar do Alberi. Quando Lucdio trouxe a segunda panela de paella com os grandes bulbos de alho dispostos em crculo 
na borda, foi recebido com urros de reconhecimento. Ele era o responsvel pela nossa ressurreio.
        Andr ainda tentou protestar, sem muita convico. A Bitinha merecia estar ali, ela que amava paellas, que era uma estudiosa de paellas. Seu protesto foi 
sepultado sob os nossos roncos ferozes. Eu lembrei o Discurso do Cio que o Ramos fizera, na hora do conhaque, depois de um memorvel jantar com trufas. Devemos as 
trufas e a civilizao ao cio das fmeas, dissera Ramos, erguendo seu copo e propondo um brinde s fmeas e s suas glndulas. As trufas cheiravam a um hormnio 
do porco, e as porcas no cio as localizavam e desenterravam, freneticamente, atrs do amor. "Em vez de um marido, encontram uma espcie de ndulo vegetal, como acontece 
com muitas moas hoje em dia", dissera Ramos. As maravilhosas trufas que tnhamos comido eram o produto da frustrao amorosa de porcas annimas. Todo o prazer gastronmico 
era uma forma de cooptao do cio, segundo Ramos. Interrompemos um processo orgnico da planta ou do bicho para com-los e gastamos a nossa prpria voluptuosidade, 
o nosso cio desgarrado, no prazer de comer. Estvamos reunidos ali graas  destruio das florestas no perodo pliocnico, quando nossos antepassados, obrigados 
a viver em bandos na savana para se proteger, tinham comeado a trocar a sexualidade natural dos animais pela sexualidade humana e os seus terrores. A histria humana 
comeara quando a fmea homnida substitura o cio dos bichos pela disponibilidade permanente, inaugurando ao mesmo tempo o ciclo menstrual, o tempo lunar e esta 
longa fuga da vulva desimpedida que era a civilizao. Todas as sociedades de homens como a nossa  - e o  gesto circular de Ramos com a mo que segurava  o charuto 
inclura a mesa com os detritos do jantar e seus nove comparsas saciados - eram pequenas florestas reconstitudas, refgios artificiais no meio da savana, o Paraso 
recuperado pelo homem, antes do cio mensal e da sua queda na Histria. Quando contei a teoria do Ramos  Lvia ela disse que, em sntese, Ramos fizera o elogio da 
porca em comparao  mulher. Sua indignao aumentou quando contei o que tnhamos pago pelas trufas.
        
        Lucdio anunciou que ainda sobrara um pouco de paella na cozinha. Dava para um. Quem ia querer? Andr hesitou, depois levantou a mao.
        - Posso levar para a Bitinha?
        - NO! - gritamos todos em unssono. Um som da floresta.
        Andr resignou-se a comer o resto da paella sozinho. Deixou os alhos para o fim. Apertou os dois ltimos alhos com as costas do garfo, fazendo espirrar o 
seu interior cremoso, mas comeu o creme com as cascas. Sentado ao seu lado e fingindo que inspecionava cada garfada de perto com interesse cientfico, Samuel disse:
        - Os deuses so justos, e dos nossos vcios agradveis...
        E Lucdio, de p ao lado da mesa, completou, como se tivessem
        - Fazem instrumentos para nos atormentar.
        Ento eu no sabia, hoje sei que a citao tambm  de Shakespeare. ReiLear. Mas Samuel e Lucdio nem olharam um para o outro, depois de dizerem a frase. 
Como se a tivessem ensaiado .
        
        
        
     
     5
     As Xifpagas Lsbicas
        
        Hava um cheiro de alho no velrio. No sei se vinha do morto. Ficamos, os oito, no centro da capela, num bolo retangular  parte, como uma falange romana 
esperando o ataque de qualquer lado. Talvez o cheiro fosse nosso. No conhecamos ningum ali, alm da viva. Que estava horrorosa, sem pintura, sentada ao lado 
do caixo. A ausncia de maquiagem deixava a mostra as cicatrizes das suas plsticas. No levantara os olhos para receber nossos psames. Cada um de ns tivera que 
buscar sua mo direita no seu colo, apert-la, e depois devolv-la com cuidado. Andr morrera durante a noite. Parada cardaca.
        Tiago estava ao meu lado. Falou no meu ouvido, mas o resto do grupo ouviu.
        - Primeiro Abel, depois Andr... Se for por ordem alfabtica...
        O prximo seria Daniel. Todos me olharam.
        -  coincidncia.
        - Pode ser. Mas eu, se fosse voc, pulava o prximo
        - Ou levava um antdoto para veneno - sugeriu Samuel.
        O jantar do ms seguinte seria o do Samuel. Tnhamos combinado que Lucdio seria de novo o cozinheiro e que o jantar seria no meu apartamento, onde Lucdio 
j se sentia  vontade na cozinha.
        - No tem nada a ver. Ningum foi envenenado na minha casa.
        - Sei no, sei no.
        - O Abel morreu trepando com a Gisela. O Andr morreu de parada cardaca.
        - Os dois morreram depois de um jantar do Clube - disse Saulo.
        - No qual a comida era a preferida deles - acrescentou Joo, no meu outro ouvido.
        - Coincidncia. Se foi alguma coisa na comida, por que ningum mais sofreu nada?
        - Sei no, sei no.
        
        O enterro foi concorrido. Trs discursos na beira do tmulo.
        Andr era um lder no setor farmacutico, quem diria. O governador mandou um representante, do qual Saulo se aproximou durante um dos discursos. Saulo apresentou-se. 
Deu seu carto. Com a morte do Andr talvez perdesse o posto  de relaes pblicas na empresa, precisava cuidar do seu futuro. Notei que o representante do governador 
aceitou o carto mas afastou-se de Saulo sem disfarar seu desconforto com o assdio. Todos nos olhavam com reprovao ou apenas curiosidade. ramos uma parte incompreensvel 
da vida do Andr. Anos antes, quando as reunies do Clube do Picadinho eram notcia nas colunas sociais, muitos ali sonhariam em pertencer ao nosso grupo. Agora 
ramos uma curiosidade, e um estorvo. Me dei conta de como tnhamos ficado estranhos. No apenas eu, com minhas camisas largas e minhas sandlias, ou o soturno Samuel 
com seu aspecto de cadver. Ou Tiago, que nunca conseguira acomodar seu corpo de viciado em chocolate em roupas convencionais. A fineza bem cuidada e perfumada do 
Pedro, que afinal era um empresrio como a maioria ali, tambm parecia deslocada, agressiva, uma pardia exagerada de elegncia. Saulo fazia questo de estar sempre 
na moda mas em algum momento perdera seu senso de propores, tudo nele destoava da sobriedade  sua volta. Parecamos um grupo de invasores de outra espcie que 
ainda no percebera que seu disfarce no funcionava, que o rabo estava  mostra. Imagino que era isso que a mulher de Andr lhe dizia, depois de descobrir que no 
ramos os sofisticados que ela pensava. No  gente da nossa espcie, Andr. 
        Deixa esse clube de malucos. Em vinte e um anos, tnhamos nos transformado em pessoas esquisitas.
        Saulo e Marcos eram primos. Criados juntos, mas no podiam ser mais diferentes. Marcos era o artista, sensvel, introvertido. Saulo era o contrrio, tinha 
uma alma de RP desde pequeno. Quando fundamos nossa agncia, a DSM, a idia era Marcos cuidar da arte, eu dos textos e Saulo dos contatos, mas nenhum dos trs tinha 
o nico talento indispensvel para o negcio dar certo, o de administrador. Apesar de serem opostos, Saulo e Marcos eram inseparveis. Nosso apelido para eles era 
Os Xifpagos, depois abreviado para Xis Um e Xis Dois. Eram os meus melhores amigos.
        Nossa amargura crescente nos ltimos anos tinha corrodo a amizade antiga, e o Saulo me dera repetidas provas do seu mau carter, mas sinto falta deles. 
De todos os que morreram, so os que me fazem mais falta.
        Merda, acabei de virar o copo de Cahors em cima do teclado. Estou escrevendo no meio da noite. Estou escrevendo o que me vem  cabea. Fui deixado para o 
fim justamente para isto, para escrever. Agora sei por que me pularam. Sou o recapitulador sagrado desta histria estranha.
        Inspirado em Saulo e Marcos, comecei inventando histrias de irmos xfpagos, irmos com ambies completamente diferentes, um querendo vencer na vida como 
saltador ein altura ou bailarino enquanto o outro tentava seguir sua vocao monstica, e as histrias depois evoluram para as aventuras das xifpagas lsbicas, 
que Marcos, Saulo e eu elaborvamos durante as longas tardes de no fazer nada, na agncia.
        Tnhamos contado com o apoio de parentes e de amigos de nossas famlias para tocarmos a DSM. O que no sabamos era que todos nos consideravam boas-vidas 
irresponsveis, sem qualquer experincia no ramo publicitrio, e que o apoio jamais passaria de palavras de incentivo, em considerao aos nossos pais. Enquanto 
no apareciam os clientes, Marcos ocupava-se pintando um mural na sua sala, Saulo recebia candidatas ao posto de recepcionista da agncia na sua, com a porta fechada, 
e eu, na minha, escrevia histrias estranhas ou telefonava. Telefonava mais do que escrevia. No sei ficar quieto. No fim da tarde comeavam a aparecer os outros. 
Gastramos uma boa parte do nosso capital inicial num estoque de usque para servir aos clientes, mas o estoque no resistira a um ms de reunies da turma depois 
das seis, na sala do Saulo, onde muitas vezes uma ou outra candidata a recepcionista concordava em ficar para conhecer o que Saulo chamava de acionistas da agncia, 
"nossos homens do dinheiro". Quem invariavelmente fazia mais sucesso com as moas era o Samuel. Algum, julgando a agncia pelo nmero de horas em que suas luzes 
ficavam acesas  noite, diria que nosso trabalho era intenso e que nosso xito estava garantido. Mas nos seus oito curtos meses de vida a agncia s fez um trabalho, 
uma campanha para uma das empresas do pai do Pedro que ns trs achamos genial mas o velho mandou pagar e nunca usoul. Pelo menos pagamos o aluguel atrasado e a 
minha enorme conta do telefone. Fechamos a agncia, nos sentindo incompreendidos e injustiados, no dia em que a minigeladeira na sala do Saulo pifou. Conclumos 
que sem gelo no dava para continuar.
        
        Para Lvia, as histrias das xifpagas lsbicas so smbolos do desperdcio da minha vida e do meu talento. Saulo e Marcos e, eventualmente outros da turma 
contriburam com incidentes e detalhes para a saga das xifpagas mas a maioria das histrias  minha. As desafortunadas irms Zenaide e Zulmira, impossibilitadas 
de consumar a forte atrao sexual que sentiam uma pela outra, tentavam compensar a frustrao tendo CaSOS com outras mulheres, casos difceis e ruidosos que sempre 
acabavam derrotados pelo cime. Como nunca podiam ficar Sozinhas com suas namoradas, uma tinha que se submeter s crticas e lamentaes da outra, ouvindo risos 
abafados quando fazia alguma declarao de amor mais rebuscada ou perguntas impacientes como "J acabaram ou no?" no meio de uma relao. Mas as aventuras das xifpagas 
lsbicas no se limitavam ao sexo. Vez que outra algum da turma me telefonava com uma idia - "Zenaide e Zulmira contra 007" ou "Zenaide e Zulmira convocadas para 
a seleo" - que eu desenvolvia.
        Uma vez tive uma briga com o Paulo, que acusou Zenaide, Zulmira e a mim de alienao, num momento em que o pas vivia um perodo gravssimo, sob um regime 
ditatorial, com a imprensa controlada, gente sendo presa e torturada, aquelas coisas com que s o Paulo, do grupo, se preocupava.
        Como resposta, inventei "Zenaide e Zulmira, descrentes do processo poltico, partem para a guerrilha", que fez muito sucesso entre a turma das seis, na agncia, 
e cujo final trgico foi contribuio do prprio Paulo: Zenaide, entusiasmada com a construo da Transamaznica, renuncia  luta armada e se entrega s foras governamentais, 
esquecendo de dizer que Zulmira no concorda com ela e carrega uma bomba sob a saia, que explode no momento em que as duas esto sendo recebidas pelas autoridades 
em Braslia. A exploso mata o presidente e todos os ministros militares, mudando o rumo da histria brasileira, e, mais importante, separa as xifpagas, que podem 
finalmente se amar como queriam, em meio s runas do palcio do Planalto.
        Continuei inventando histrias das xifpagas lsbicas, at hoje me isolo no meu tronco de rvore e escrevo sobre elas, mas as histrias ficam cada vez mais 
sombrias. Nas minhas histrias as gmeas continuam xifpagas, mas com o tempo e o envelhecimento das duas esta condio se transformou numa alegoria que eu mesmo 
mal compreendo. De dualidade danada, de horror a esse outro inapelvel que  o nosso corpo, a essa carne excedente que no  a gente mas compartilha da nossa biografia 
e no fim nos leva junto quando morre, a essa... Ouo a voz da Lvia dizendo "Daniel, chega!" Para ela as xifpagas lsbicas na sua verso cmica e alienada j eram 
doentias. No quer me ouvir falar das suas aventuras passadas, quando ainda no nos conhecamos. Lvia diz que elas j eram uma manifestao da nossa misoginia patolgica. 
 desse sumidouro, entre outros, que ela quer me salvar. Fiquei uma pessoa esquisita demais.
        Um que nunca entendeu as xifpagas lsbicas era o Joo. No via qual era a graa. Gostava de boas anedotas, no do que chamava de "humor r-r", que fazia 
as pessoas sorrirem e dizerem "r-r", para mostrar que tinham entendido, em vez de darem boas risadas. Joo, nosso esperto picareta, que sobrevivera anos no mundo 
crepuscular da consultoria financeira semilegal e fora jurado de morte por mais de um cliente arruinado sem perder seu bom humor. Pensei muito no seu riso, no seu 
invarivel otimismo em qualquer situao, quando perguntei ao Lucdio qual seria o cardpio do jantar do Samuel. Seria, por acaso, gigots d'agneau, meu prato favorito? 
Outra maneira de perguntar se o escolhido para morrer era eu, se a ordem era mesmo alfabtica. No, respondeu Lucdio. Champignons salteados  Provenal, se no 
estivssemos fartos de alho depois da paella do infeliz Andr. Depois, pato com laranja.
        Ganard  l'orange era o prato favorito do Joo.
        Telefonei para o Saulo.
        - Canard  l'orange.
        - O qu?
        -  o prato que Lucdio vai fazer no prximo jantar.
        - E a?
        -  o favorito do Joo.
        Silncio. Depois:
          - Telefona para ele.
        Telefonei para o Joo.
          - O prximo jantar do Lucdio. Para o Samuel.
          - Sim?
          - Canard  l'orange.
        Silncio. Depois:
          - Obrigado.
        Joo foi o primeiro a chegar para o jantar do Samuel. Viu a minha cara de surpresa e disse:
        - Pato com laranja feito pelo Lucdio? Voc acha que eu ia perder?
        Marcos e Saulo chegaram logo depois e tambm se surpreenderam quando viram o Joo. Saulo olhou para mim. Levantei as mos, para rechaar qualquer responsabilidade.
        - Eu avisei.
        - Voc quer morrer, Joo? perguntou Saulo.
        - Vocs esto esquecendo - disse Joo - que existem duas teses. Uma: as mortes so por ordem alfabtica. Neste caso,  a vez do Daniel. Duas: morre quem...
        Joo teve que parar porque Lucdio entrara no salo para checar um detalhe da mesa, que j estava posta. Quando Lucdio voltou para a cozinha, continuou.
        - Segunda tese: morre quem mais gosta do prato do dia. E terceira tese: estamos todos ioucos. As mortes no tm nada a ver com os jantares.
        - De qualquer jeito - disse Marcos - hoje saberemos.
        Samuel sempre servia champanha nos seus jantares. Antes e durante. Comeamos bebendo champanha com os canaps maravilhosos do Lucdio. Brindamos ao Ramos 
e ao Abel e, depois de uma certa hesitao, ao Andr. Depois Joo levantou seu copo na minha direo e disse: 
        - Que morra o pior.
        Marcos fez "Ssshh!" O Lucdio podia ouvir da cozinha.
        Nosso cozinheiro tivera um problema com meu forno. Calculara trs patos para o grupo de oito mas no forno s cabiam dois patos de uma vez. Deixou para fazer 
o terceiro pato enquanto liquidvamos os dois primeiros. Estavam perfeitos. Joo gemia a cada garfada. Nunca provara um molho  L'orange como aquele. E eu confesso 
que a perspectiva de morrer aumentava meu prazer na comida. Era verdade o que Lucdio dissera sobre o fugu, o risco da morte afetava mesmo o aparelho gustativo, 
os sabores adquiriam uma definio indita, voc comia num estado de exaltao, quase de euforia. Lembrei da teoria do Ramos, exposta no ltimo jantar antes da sua 
prpria morte, de que nas nossas clulas errantes h algo que inveja o Condenado, que tem cime da morte certa.
        Joo devia estar sentindo a mesma coisa. Ele tambm estava abenoado com um destino, tambm desfrutava aquela delcia indita, uma refeio no corredor da 
morte. Quando fui buscar o terceiro pato, notei que Lucdio tinha colocado algumas fatias com molho num prato separado e posto de lado. Joo e eu nos encarregamos 
de acabar, sozinhos, com o terceiro pato, numa deferncia da mesa a quem estava, hipoteticamente prestes a morrer, fosse qual fosse o critrio.
        Saulo suspirou e disse:
        - Eu  que devia morrer...
        Ele tinha sido despedido da empresa do Andr. No conseguia outro emprego. Estava sem dinheiro, e alm do que devia para a ex-mulher ainda tinha que sustentar 
o Marcos. Olhava para Joo e para mim com inveja.
        Continuamos comendo como dois condenados.
        Lucdio apareceu da cozinha com o que sobrarado pato.
        Aproximou-se da mesa com alguma solenidade, envolto no seu cmico avental branco que quase arrastava no cho. Ns estvamos em silncio, oito expectativas 
mudas em torno de trs carcaas. Sabamos que tnhamos entrado numa zona rarefeita de graves definies. Dali para diante seria o Clube do Picadinho contra o destino, 
segundos fora, e a nossa adolescncia estava longe. Lucdio disse:
        - Sobrou um pouco. Quem vai querer?
        Eu e Joo nos entreolhamos. Eu disse:
        - No posso mais. Estava timo mas...
        Joo estendeu a mo para o prato.
        - D aqui.
        
        Citao do Rei Lear da noite. Fui procurar depois. Lucdio, depois de contar que o segredo do seu Canard  l'orange era o Calvados e que o molho era o resultante 
de uma  "entente cordiale" - dito sem qualquer humor - entre a ma e a laranja, que ele esperava tivesse agradado:
        - Prefiro ser criticado por falta de sabedoria do que elogiado por excesso de suavidade.
        No tenho certeza de qual foi a reao de Samuel ao ouvir a frase. Tenho a vaga lembrana de um sorriso, e de um abano de cabea, como quem no acredita 
no que est ouvindo.
        Na minha ltima histria das Xifpagas Lsbicas, Zulmira, j velha, depois de experimentar o amor com todos os tipos de mulheres, tem um caso com uma vampira. 
 mordida no pescoo e tambm vira vampira. Sua obsesso passa a ser morder o pescoo de Zenaide, que  obrigada a manter-se numa viglia constante contra os caninos 
da irm, e o amor irrealizado das duas transforma-se em dio. A metfora, se me entendi bem,  sobre o terror de um destino  espreita, em vez de um destino terrvel 
mas claro e certo. Lvia tapa os ouvidos quando eu tento lhe contar as histrias das xifpagas lsbicas. Est tentando me convencer a escrever histrias para crianas.
     
     
     
     6
     A Escama 2
        
        O primeiro da turma a dirigir um carro foi o Joo. Roubou o carro do pai, botou mais sete dentro e nos levou para dar uma volta, que acabou dentro do quintal 
de uma casa, depois de, nunca ficamos sabendo bem como, pular sobre um muro de pedra mais alto do que o carro. Fugimos para o bar do Alberi, onde pouco depois chegou 
o dono da casa, o seu Homero, acompanhado de um policial. Estvamos todos ofegantes e o Joo sangrava de um corte na testa, feito por um ano de jardim que, tambm 
inexplicavelmente, entrara pelo prabrisa do carro. E foi ento que Alberi disse a frase que repetiria-mos, por muitos anos, todas as vezes que lembrvamos o episdio: 
"Aqui so todos anjos". No ramos inocentes apenas da invaso do quintal do seu Homero. Pelo tom do Alberi, seramos inocentes para sempre, nao importava o que 
fizssemos. No era uma absolvio, era uma danao. No era uma condio passageira e mentirosa, era uma categoria. E nenhum de ns se parecia mais com um anjo 
do que Marcos, o Xis Dois, com seu perfil delicado e seus olhos lquidos de bass. Ele cara de cara no cho ao sair de dentro do carro, estava coberto de lama e 
tremendo, e foi ele quem disse para o seu Homero e o policial que confirmava a informao do Alberi. Estvamos no bar havia umas duas horas, no sabamos de carro 
nenhum, ramos inocentes. Os olhos do Marcos nos salvaram aquela noite. Todos se safaram menos o Joo, j que o carro do pai dele foi identificado. O castigo de 
Joo o tirou de circulao por mais de um ms. E agora Marcos era o que mais chorava no velrio do Joo. O velrio de maio.
        -  o castigo - disse Marcos.
        Ele se tornara mstico. S no levitava por causa do peso, porque tambm ficara esquisito com o tempo. Um vez tentara carregar o Saulo para o Tibet, e s 
desistira quando, depois de usar todos os argumentos para dissuadi-lo, Saulo abrira os braos para que Marcos o examinasse bem, at dera uma volta para que Marcos 
no perdesse um detalhe da sua roupa branca e da sua gravata vermelha estufada, e dissera "Voc pode me imaginar no Himalaia?" Marcos desistira do Tibet. 
        Os dois nunca se separavam. Marcos era rfo e tinha sido criado pela tia, a me de Saulo. Quando Marcos, desiludindo todas as outras apaixonadas pelo seu 
perfil romntico e seu olhar de cachorrinho, ou de "crpula arrependido", como dizia  Samuel, casou-se com a Olguinha, a piada do Joo "Quem ser que vai dormir 
no meio?" no ficou longe da realidade. Saulo foi junto na viagem de lua-de-mel, embora jurasse que dormira num quarto separado. Saulo protegia Marcos. Insistia 
que o primo era um grande pintor, mesmo depois que o resto da turma j se resignara  sua mediocridade. Comprava quadros do Marcos em segredo para ele pensar que 
suas exposies faziam sucesso. Cada um de ns tinha vrios quadros do Marcos em casa, dados pelo Saulo. Quando a Olguinha abandonara o Marcos por um uruguaio, Saulo 
jurara vingana, mas no apenas contra Olguinha e o amante. Tambm passara a pensar em maneiras de prejudicar o Uruguai, organizando boicotes e protestos contra 
o pas. Marcos era o nosso caula. Nem o Samuel conseguia insult-lo com convico, limitando-se a dizer coisas como  "Esse crpula ainda vira santo, ou vice-versa". 
Era o nico dos meus amigos de quem Lvia gostava. Uma vez ela conseguira atra-lo para um dos seus programas dietticos. Exerccios, refeies planejadas e fibras, 
muitas fibras. No durara muito. Ela no sabia que aquele exterior de anjo encobria um apetite do Diabo. Com o tempo, nosso artista romntico tornara-se fio e gordo 
e cada vez mais areo. S voltava  realidade para breves visitas, e para comer. Fazia pinturas msticas, com alegorias primrias, mas  felizmente no encontrava 
mais ningum disposto a exp-las. Estvamos livres de ganh-las de presente do Saulo.
        -  castigo - disse Marcos, no enterro do Joo, depois que conseguiu controlar o choro. Eu:
        - Que castigo?
        - Estamos sendo punidos.
        - Porqu?
        Os olhos lquidos, agora de um cachorro velho.
        - Por qu? Por qu? Voc ainda pergunta por qu?
        Estvamos cochichando num canto. Os nicos outros sons dentro da capela eram os soluos da famlia do Joo. Olhei em volta, procurando uma cara satisfeita. 
Mas nenhum dos investidores enganados por Joo estava no velrio.
        - Ningum foi envenenado na minha casa - repeti.
        Mas Marcos continuava:
        - Pelos nossos pecados. Pela corrupo das nossas almas.
        Saulo segurou o brao de Marcos.
          - Calma, Marquinhos.
        
        No ltimo jantar antes da sua morte, Ramos nos falou da inveja secreta que tnhamos dos condenados. Ele j sabia que ia morrer. Ns todos sabamos. O jantar 
foi no meu apartamento, e o responsvel pela comida e a bebida foi o Samuel. Servimos os pratos preferidos do Ramos, medalhes de lagosta com maionese e o cordeiro 
com molho de menta que, segundo ele, era a nica contribuio da Inglaterra para a civilizao ocidental, alm de Shakespeare e do parlamentarismo, mas para o qual 
no conseguira nos converter. S Ramos, na turma, gostava do molho de menta.
        Ramos disse que a nossa vida era uma histria de assassinato mal contada, sem as simetrias e as epifanias da arte. Sabamos quem era o assassino desde o 
incio. Ele nascia conosco. Nascamos ligados ao nosso assassino. Sim, como as xifpagas do "nosso Daniel" - e a mo com o charuto me abenoou de longe. Crescamos 
junto com o nosso assassino, a identidade do nosso assassino no era um mistrio. Tnhamos as mesmas fomes e as mesmas fraquezas e cometamos os mesmos pecados. 
Mas no sabamos quando ele nos mataria, no sabamos qual era o seu jogo. Saber a hora e a forma da nossa morte era como ser presenteado com um enredo, com uma 
trama, com todas as vantagens da literatura policial sobre a vida. Saber o nosso destino era como ter olhado o fim do livro. Passvamos a fazer outra leitura da 
nossa vida, agora como cmplices do autor e do assassino. Tnhamos simetria, significado e lgica. Ou ironia, que tambm era uma forma literria de lgica. A nica 
maneira inteligente de ler uma histria policial  comear pelo fim, disse Ramos, recebendo com um sorriso triste o protesto de Tiago, o Kid Chocolate, que alm 
de chocolate tambm era viciado em histrias policiais, entre outras obsesses. O que invejamos no condenado  morte  o seu privilgio de saber o seu fim, de ser 
um leitor superior a ns. No h leitores casuais nos corredores da morte, completou Ramos. Todos os escritores, todos os crticos e todos os gastrnomos deviam 
estar sempre em estado terminal. Naquela noite, pela primeira vez desde a fundao do Clube do Picadinho, Ramos no comandou o brinde com o conhaque. Ns todos sabamos 
que aquela era a ltima vez que jantaramos juntos. S no sabamos que o fim seria to rpido. No dia seguinte Ramos estava no hospital, onde morreria antes da 
meia-noite.
        Samuel levantou-se e fez o brinde, erguendo o copo na direo de Ramos.
        - Ao nosso crpula-mor.
        O velrio de maio foi o mais conturbado de todos. A famlia de Joo no encontrava explicao para a sua morte. Ele chegara em casa depois do jantar, meio 
bbado, e recusara-se a ir para a cama.
        Recusara-se a sentar. Dizia que queria estar de p quando ela chegasse.
        - Ela quem?
        - Ela, ela.
        Estava agitado. Acabara concordando em deitar pelo menos no sof, quase ao amanhecer. E no acordara mais. Corao. Ele que nunca tivera nada, que nunca 
perdia o bom humor, que atravessara crises, ameaas de processo e de morte e a perspectiva da runa iminente com presso de menino. De menino, enfatizava a sua mulher, 
indignada. Como era possvel? 
        
        A Lvia entrou na capela, cumprimentou a me e a mulher do Joo e veio na minha direo como se fosse me bater.
          - O que  isso, Zi?
          - Calma. Aqui no.
          - O que  isso? O que est acontecendo?
          - Ningum foi envenenado na minha casa.
        Como era possvel? Trs jantares, trs mortes, o que era aquilo?
        Pedi para Lvia baixar a voz mas a mulher do Joo, notando que ganhara uma aliada, veio juntar-se a ela sob o meu nariz. Como eu explicava aquilo? O Clube 
do Picadinho fechou fileira atrs de mim. O Clube do Picadinho cuidava dos seus. Samuel disse que ningum precisava explicar nada. Fora uma fatalidade. Saulo tambm 
comeou a nos defender, mas teve que parar quando se deu conta que Marcos no estava mais ao seu lado.
        Marcos estava junto ao caixo e comeara a fazer um discurso para o morto.
        - Pecador...
        Saulo conseguiu afast-lo antes que ele continuasse, mas a me do Joo j estava com a cabea atirada para trs com o choque, a boca aberta procurando ar. 
Achamos melhor nos retirar em grupo, os sete sobreviventes, antes que nos expulsassem. Na sada ouvimos algum falar em autpsia. Aquilo no podia ficar assim.
        Lvia, ajudada pelas tropas da minha madrasta, fez uma limpeza radical na minha cozinha. Trocou todas as panelas e desinfetou toda a rea de servio. E exigiu 
saber mais sobre "esse tal de Lucdio", que estava fazendo os nossos jantares. De onde ele sara? Os germes assassinos podiam estar nas suas mos.
        Tentei desconversar, mas Lvia insistiu. Queria estar presente quando ele cozinhasse de novo para o grupo. Isso se ns fssemos loucos o bastante para continuar 
com os jantares, depois das trs mortes. 
        Quinze dias depois do enterro do Joo, Lucdio me telefonou. 
        - Sinto muito pelo Joo.
        - Anr.
        - Foi corao?
        - Parece. Falaram em fazer uma autpsia, mas acho que no fizeram.
        - Autpsia?
        - Para saber o que o matou. Pode ter sido at, sei l. Veneno.
        - Veneno na comida?
        - .
        Ele ficou em silncio. E de repente, fui tomado pelo pnico. No queria que ele me entendesse mal, desligasse o telefone e desaparecesse para sempre das 
nossas vidas. No antes de fazer meu gigot d'agneau.
        Disse:
        - Al, voc est a?
        - Estou.
        - Vamos tratar do jantar de junho?
        Tnhamos combinado que o jantar de junho seria o do Paulo. Feito na minha casa pelo Lucdio, como os outros.
        - Certo - disse ele.
        Suspirei aliviado.
        - O que voc est pensando em fazer?
        - Quiches. Como prato principal.
        - Certo.
        Quiche. O Marcos era louco por quiche.
        
        Dei a data do jantar errada para a Lvia, para evitar que ela encontrasse o Lucdio durante os preparativos. Lucdio reclamou da troca das panelas. Ainda 
bem que Lvia substituira minhas frmas para quiche por outras, mas preferia as frmas usadas. Na noite do jantar, depois que todos chegaram, reuni o grupo no meu 
escritrio e fechei a porta  chave. Se o Lucdio sasse da cozinha, onde estava desde aquela tarde preparando o jantar, no nos surpreenderia. Falaramos em voz 
baixa para que ele no pudesse escutar atravs da porta. Precisvamos conversar.
        - Abel, Andr, Joo... Se  em ordem alfabtica, ele pulou voc,
        Daniel. Por que ser?
        - No  por ordem alfabtica - disse Marcos.
        - Ento qual  a ordem?
        - Por pecado. Abel foi o primeiro dos dez porque abandonou a Igreja. Honrars o senhor teu Deus no  o primeiro mandamento?
        Todos se entreolharam. Ningum sabia a ordem dos dez mandamentos.
        - Qual era o pecado do Andr, alm de ser chato? - perguntou Samuel.
        - E o do Joo? Mentiroso? Acho que usura, picaretagem e anedota ruim no esto cobertas nos mandamentos. Ou esto?
        -  por ordem alfabtica - disse Pedro.
        - Ou por ordem nenhuma. Ele escolhe um para morrer, e faz o prato que o cara mais gosta.
        Todos estavam olhando para o Marcos. Pelos dois critrios, era a vez dele.
        - Se  por ordem alfabtica, por que ele pulou o Daniel? - insistiu o Marcos.
        - Porque o Daniel  o dono da casa e da cozinha e o que o trouxe para o nosso meio. Por qualquer critrio, o Daniel ser o ltimo a morrer.
        - De qualquer jeito - disse Pedro - morre o ltimo que pede mais.
        - Morre como? - perguntei.
        - Como, "como"? Envenenado.
        - Ningum  envenenado na minha casa.
        -  Daniel. Acorda. Ele est nos envenenando um a um. Deve ser com o veneno do peixe.
        - Que peixe?
        - O tal peixe japons. O da escama.
        - E vocs acreditam naquela histria? Era o Samuel falando.
        - Por que no amos acreditar? Ele disse que estudou Culinria em Paris e os pratos dele provam que  verdade. Ele disse que tem acesso a um veneno poderosssimo 
e trs mortes misteriosas depois de jantares feitos por ele provam que  verdade E ainda tem a escama.
        - A escama no prova nada - disse Samuel.
        - Por qu? E ento Samuel tirou a carteira do bolso e de dentro dela pinou uma escama idntica  que Lucdio nos mostrara.
        - Porque eu tambm tenho uma.
        Segundo Samuel, a escama plastificada era vendida em qualquer loja de artigos japoneses do mundo e o ideograma no queria dizer nem "Todo desejo  um desejo 
de morte" nem "A fome  um cocheiro surdo" nem qualquer outra bobagem parecida, mas a palavra "mar". E a escama era de um peixe que podia ser venenoso ou no, mas 
provavelmente era apenas um peixe ornamental qualquer. Pedro disse que aquilo tambm no provava nada, que o fato era que Lucdio estava nos envenenando e que o 
Marcos era claramente o escolhido do dia e precisava decidir o que fazer. E a, Marcos?
        Mas Marcos estava com a cabea levantada, com um meio sorriso nos lbios. No tinha ouvido nada.
        - Sintam... - disse Marcos.
        - O que, Marquinhos? - perguntou Saulo.
        - O cheiro da quiche.
        Canaps fantsticos. Aspargos gigantes, sados Deus sabe de onde, com molho hollandaise. E as quiches Lorrain es. Delicadas, deliciosas, divinas. Duas por 
pessoa, ocupando todo o prato. Todos os pratos voltaram para a cozinha vazios. A nica nota destoante do jantar foram os vinhos do Paulo. Paulo trabalhava para Pedro, 
que estava quebrado. Segundo Samuel, a regra numa situao assim  os vinhos dos empregados piorarem  medida que os do patro melhoram, pois o patro passa a gastar 
mais com suprfluos, para se consolar, do que com sua empresa falida e seus empregados. Os vinhos eram nacionais, o que valeu vrios insultos do Samuel ao Paulo 
e ao Pedro. Samuel estava ameaando dissolver a manga da suter de Paulo, encharcando-a de vinho, quando Lucdio apareceu da cozinha com uma quiche num prato e disse:
        - Sobrou uma. Quem vai querer?
        Fez-se um silncio profundo e prolongado. Marcos e Saulo estavam se olhando. Finalmente Saulo disse:
        - Voc no vai querer, vai, Marquinhos?
        Tiago perguntou o que tinha de sobremesa, para mudar de assunto.
        Lucdio no respondeu. Samuel disse:
        - Deixa pra l, Marcos.
        -  - reforou Pedro. - Vamos para a sobremesa.
        Marcos continuou em silncio. Olhou para a quiche, depois outra vez para o Saulo, depois para a quiche. Suspirou e disse:
        - Eu quero. Saulo hesitou, depois disse:
        - Ento me d um pedao.
        Lucdio voltou para a cozinha e trouxe outro prato. Dividiu a quiche em dois pedaos iguais e colocou os pratos na mesa em frente a Marcos e Saulo. Tudo 
isto em silncio. Marcos e Saulo comeram em silncio. Continuamos em silncio at os dois acabarem. Com Lucdio perfilado ao lado da mesa. No fim, Samuel, os sulcos 
do seu rosto dando a impresso de que tinham se aprofundado ao longo da noite, disse:
        - O pior ainda no aconteceu, enquanto pudermos dizer O pior.
        Rei Lear. Ato quatro, cena um.
        E Lucdio sorriu com a boca apertada.
        
        
        
     
     7
     "Wanton Boys"
        
        Um dia passamos a tarde inteira na A agencia, Marcos, Saulo e eu, discutindo como seria a mulher perfeita. Eu j estava namorando a minha primeira mulher, 
a que me enterneceu quando nos separamos e ela insistiu em levar uma pequena estatueta que tnhamos comprado juntos para ter uma lembrana dos nossos  "bons tempos", 
at ela chegar na porta, virar-se e atirar a estatueta na minha cabea. Ns todos tnhamos namoradas, firmes e no to firmes, menos o Samuel, que desprezava meninas 
"de famlia" e era assduo dos bordis da cidade. Mas nenhuma namorada contribuiu com um detalhe sequer para o nosso consenso da mulher perfeita. Naquela tarde descrevemos 
como seria o seu cabelo e a sua pele e chegamos a especificar como seriam seus dentes, concordando que uma pequena proeminncia dos incisivos que levantasse ligeiramente 
o lbio superior s realaria sua perfeio. Escolhemos timbre da voz, seios, pernas, at a espessura dos tornozelos. S quando j estvamos com a mulher pronta, 
e decidindo se a compartilharamos ou a disputaramos at a morte,  que nos demos conta. Tnhamos descrito a Mara, mulher do Pedro. Nos apressamos em criar um nome 
para o nosso ideal que em nada lembrasse a mulher do amigo: Vernica Roberta. Era com Vernica Roberta que sonharamos, toda vez que sonhssemos com Mara, a que 
nunca teramos.
        Em vinte anos, Mara no perdera sua beleza tranqila. Tinha um pouco de grisalho no cabelo, que no disfarava. Seu corpo ficara mais espesso e pesado, mas 
as formas ainda eram as mesmas da nossa paixo. 
        Ela olhou o rosto de Saulo no caixo, depois ficou por um longo tempo olhando o rosto de Marcos, que parecia ter readquirido sua juventude e seus traos 
finos de anjo com a morte. Marcos tambm era o seu favorito. "O Marcos  o nico de vocs que presta", ela me dissera uma vez, depois do caso com o Samuel e do divrcio 
do Pedro. Ela veio na minha direo. Samuel estava do meu lado. O velrio de Xis Um e Xis Dois transcorria calmamente, em contraste com o velrio conturbado de Joo, 
apesar do choque da morte simultnea dos primos e da perplexidade crescente com aquelas tragdias envolvendo o Clube do Picadinho, que diminura cinqenta por cento 
em quatro meses. Mara me cumprimentou. Eu hesitei, depois disse:
        - Voc se lembra do Samuel?
        Ela teve um choque.
        - Samuel!
        Ele estava sorrindo, cuidando para no separar os lbios e mostrar os dentes podres. Suas olheiras pareciam feitas a carvo, e malfeitas.
        - Como vai, Mara?
        Ela no conseguia falar. Os dois ficaram se olhando, Mara de boca aberta, o sorriso forado de Samuel aprofundando as cavidades nas suas faces descarnadas. 
Finalmente ele fez um gesto com os ombros, como que se redimindo de qualquer culpa pela passagem do tempo, e pedindo perdo por ser o terceiro cadver presente. 
E a Mara comeou a chorar.
        
        Nunca soubemos se o Pedro chegou a desconfiar que a Mara o enganara com Samuel. Para ns o caso foi um trauma. No estava nas nossas expectativas para a 
mulher perfeita um caso com Samuel Quatro Ovos, por mais irresistvel que fosse o bandido. No nos incomodava pensar em Mara e Pedro dormindo juntos. Desde garotos 
tnhamos concedido a Pedro o direito a todos os seus privilgios de bero, sem nos sentirmos diminudos. Quando ele passou a s ter aulas particulares em casa, lamentamos 
a perda do colega mas no o renegamos ou invejamos.
        Quando a me dele o proibia de se misturar conosco, compreendamos a preocupao da dona Nina: ramos mesmo anti-higinicos e perigosos.
        Quando Pedro ganhou seu primeiro carro ao fazer dezoito anos, concordamos com as suas condies para entrar no carro, s dois de cada vez para no forar 
a suspenso e de sapatos limpos, e nos sentimos de alguma forma regalados com o carro novo. E quando Pedro nos apresentou sua namorada Mara, com os cabelos escorridos 
e a pele muito branca e os dentes incisivos levemente imperfeitos, mas s at o ponto da perfeio, conclumos que aquilo era mais um merecido prmio da fortuna 
ao nosso prncipe herdeiro. A viagem de lua-de-mel de Pedro e Mara pela Europa durou quase um ano, e ns a acompanhamos toda na imaginao, de cama em cama. Quando 
voltaram, Pedro assumiu seu lugar na empresa do pai, depois substituiu o pai morto na direo da empresa, e em vinte anos destruiu a empresa, o que ns j espervamos, 
e perdeu a Mara, o que ns nunca perdoamos. Quando o Clube do Picadinho fez sua primeira excurso  Europa, Pedro e Mara ainda no tinham se divorciado mas ele levou 
outra na viagem, nos sonegou a companhia da Mara. Tivemos de nos contentar em sonhar com a Vernica  Roberta, que nunca nos desiludiria. A Vernica Roberta, por 
exemplo, jamais teria um caso com o Samuel Quatro Ovos. 
        Foi na primeira excurso do Clube do Picadinho a Paris que Ramos me falou, pela primeira e nica vez, na sua homossexualidade. Estvamos caminhando pela 
beira do Sena, num fim de tarde, e ele me contava da sua experincia parisiense. Vinha a Paris desde jovem adulto, em certa poca tinha morado quatro anos num apartamento 
em Montparnasse. Voltava a Paris todos os anos, s vezes mais de uma vez por ano. Tinha um amigo em Paris. Um grande amigo. Depois se corrigiu, como se tivesse tomado 
uma deciso.
        - Amigo... E um amante.
        - Sei - disse eu, s para no ficar quieto.
        - Nos conhecemos aqui mesmo. Ele  brasileiro.
        - Sei.
        - Ainda no o procurei, desta vez. E um caso complicado...
        Olhei disfaradamente para o rosto de Ramos, procurando alguma explicao para aquele sbito acesso de confidncias. Estvamos caminhando juntos por casualidade. 
No tnhamos  nenhuma afinidade especial, alm das afinidades do grupo todo. Ele era O nosso organizador e tutor e a nossa admirao, mas sabamos pouco a seu respeito. 
Fora Samuel quem o introduzira no grupo, mas nem Samuel parecia saber muito da sua intimidade. Samuel o chamava constantemente de "veado", por causa das suas manias 
e do seu jeito afetado. Mas anos depois quando Ramos estava no hospital morrendo de Aids, Samuel parecia ser o mais inconformado com a confirmao da sua homossexualidade, 
o que acabara com a nossa suposio de que os dois fossem amantes.
        - Sei.
        - Eu tenho outro amigo, no Brasil.
        - Sei.
        - Estou aborrecendo voc?
        - No, no.
        - Histrias de amor so aborrecidas. Principalmente histrias complicadas de amor.
        - No, no.
        - A infinita variedade do comportamento humano no tem o fascnio que dizem. , sim, a causa de todos os nossos aborrecimentos.
        - Sei.
        Eu no estava confortvel no papel de confidente do Ramos. Por que eu? Como tinha a compulso de falar, no era um confidente confivel
        - Se os dois fossem pessoas sensatas... Mas no so. So insensatos e cruis.
        - Os dois se conhecem?
        - Se conhecem, se conhecem. E se odeiam.
        E depois:
        - Meus "wanton boys"...
        Entendi "meus wong-tong boys" e pensei que tivesse alguma coisa a ver com comida chinesa, mas Ramos explicou que wanton era um termo em ingls que queria 
dizer travesso, impiedoso, mau. "Wanton boys" era de Shakespeare.
        Naquela noite jantamos numa grande mesa num dos mais antigos restaurantes de Paris e o discurso do conhaque do Ramos foi em francs, debaixo de protestos 
da maioria. E Samuel quase causou um incidente com a sua insistncia em chamar os garons de "monsieur le crapule". Depois daquele fim de tarde em Paris, Ramos nunca 
mais me falou da sua vida particular, nem eu perguntei.
        No enterro dos Xifpagos, um homem aproximou-se de mim e se apresentou. Entendi ele dizer "Inspetor" e me adiantei, antes que ele fizesse qualquer pergunta:
        - Ningum  envenenado na minha casa, Inspetor.
        Mas era engano. Ele me corrigiu.
        - "Inspetor", no. Spector. Meu carto.
        Chamava-se Eugnio Spector e o seu carto trazia apenas mais uma palavra, "Eventos", alm de um nmero de telefone. Gostaria de falar comigo, quando fosse 
conveniente. Tinha uma proposta a fazer que talvez me interessasse. Pediu que eu lhe telefonasse. "Assim" - disse ele, fazendo um gesto episcopal que incluiu tudo 
 nossa volta - "que passar a dor". O sr. Spector esteve aqui h dias e... Mas me adianto, me adianto.
        Pra, Daniel.
        Depois do enterro, fomos para o meu apartamento. Nos reunimos no escritrio. O Clube do Picadinho com seu efetivo vivo completo: cinco membros. No enterro, 
Lvia s dizia "Que loucura  essa, Zi? Que loucura  essa? Parem com esses jantares!" A questo a discutir era: pararamos com os jantares ou no? O prximo a oferecer 
o jantar seria o Pedro. Pela ordem alfabtica - j que Saulo obviamente morrera fora de ordem, por sua prpria iniciativa -, depois do Marcos deveria morrer o Paulo.
        - E ento? Cancelamos o jantar? - perguntei.
        - No - disse Paulo, sem hesitao.
        - Acho que devemos votar... - disse Samuel.
        - O principal interessado sou eu - disse Paulo. - Sai o jantar.
        Pedro sugeriu que ele, e no o Lucdio, escolhesse o cardpio.
        Paulo no aceitou. Lucdio decidiria o que fazer. Eu sugeri que supervisionssemos a feitura dos pratos. Principalmente da ltima e fatdica poro. Paulo 
tambm vetou a medida. Lucdio devia ter toda a liberdade para trabalhar.
        - Digam a verdade - disse Paulo. - Tirando as mortes... Vocs alguma vez comeram to bem como nesses jantares do Lucdio? Alguma vez na vida?
        - No, mas...
        - E tem outra coisa. Se comearmos a interferir no trabalho dele, ele desaparece. Ele vai embora. Ele nos deixa.
        - Ns  que estamos indo embora - disse Tiago. - Um por um. Um por ms. O Clube do Picadinho vai acabar no por falta de cozinheiro, mas por falta de membros. 
Ns estamos todos morrendo!
        E ento o Paulo se recostou na poltrona, sob uma pintura do Marcos que mostrava, segundo o pintor, a luta do Ser Uno para Se livrar da dualidade do corpo 
e do esprito, e disse o seguinte:
        - Vocs eu no sei, mas eu no me importo.
        
        A Lvia telefonou para saber como eu ia. Respondi que estava bem, que ia tentar dormir. Ela perguntou se tinha algum comigo. "No", menti. O Samuel tinha 
ficado para trs, depois que os outros trs saram. Estava em profunda depresso, pela morte de Marcos e Saulo e pelo seu encontro com Mara. 
        - Parem com essa loucura, Zi!
        - Certo.
        - Parem com os jantares. Denunciem esse cozinheiro!
        - Certo, certo.
        Quando desliguei o telefone, Samuel estava examinando um dos quadros do Marcos doados pelo Saulo que cobriam a parede do meu escritrio.
        - Voc acha que o Marcos se matou por autocrtica? perguntou Samuel, sem se virar.
        -  isso que ns estamos fazendo? Nos suicidando?
        - Eu no. E voc?
        Me lembrei da minha euforia ao comer o pato l'orange, quando havia a possibilidade de que eu fosse o escolhido para morrer. A sensao que Ramos descrevera, 
de estar entrando num territrio privilegiado, onde tudo era ntido e inevitvel, e os sentidos se aguavam como nunca. O territrio do condenado. Ou do provador 
de fugu descrito por Lucdio.
        - Samuel, me diz uma coisa...
        - O qu?
        - Como  que voc tem uma escama de peixe igual  do Lucdio?
        - Pergunte ao Lucdio por que ele tem uma escama de peixe igual  minha. E mentiu a seu respeito.
        - Onde voc conseguiu a sua?
        - Ganhei.
        - Por que voc acha que o Lucdio mentiu a respeito da escama?
        - Queria provocar o seu interesse. Toda a histria do fugu  inventada. Ele s queria deixar voc intrigado. Sabia como voc gosta de histrias estranhas.
        - Como ele sabia?
        - Algum contou.
        - Voc acha que ele fez tudo isso para ser convidado a cozinhar para ns? Para nos envenenar?
        - E deu certo.
        - Por que ele est nos envenenando?
        - Voc no est fazendo a pergunta certa.
        - Qual  a pergunta certa?
        - Por que ns estamos nos deixando envenenar?
        
        Paulo foi o ltimo a chegar no jantar em que seria envenenado.
        Lucdio tinha confirmado: o prato da noite seria blanquette de veau. O prato favorito do Paulo. O condenado chegou com um grande pano vermelho sobre as costas, 
como uma capa. Procurara alguma coisa do seu passado de ativista poltico para trazer para seu sacrifcio e no encontrara nada, fora alguns livros mofados. Improvisara 
a bandeira vermelha, que manteria sobre os ombros pelo resto da noite. Durante a qual s ele falou. Fez um histrico do seu engajamento, desde os seus tempos de 
estudante, passando pelo seu mandato de vereador, o tempo na clandestinidade, as manifestaes, as misses secretas para o partido, a priso, a eleio para deputado. 
E falou na traio. Sim, era verdade. 
        Tinha trado, entregado companheiros. Tinha estado nas barricadas e na merda, enquanto ns levvamos nossas vidas mdias sem qualquer grandeza, sem nem a 
exaltao da grande calhordice, da grande culpa. Tnhamos em comum a nossa fome, e o nosso fracasso, mas ele tinha tocado os extremos, ele era melhor do que ns, 
do que todos ns, inclusive os mortos. E a todas estas devorava os canaps, depois a tarte a lignon, depois vrios pratos da vitela acompanhados por um Bordeaux 
branco seco que Pedro desencavara para a ltima refeio do seu colaborador. E quando Lucdio trouxe da cozinha a terrina com o que sobrara da blanquerre, no precisou 
perguntar quem queria mais. Paulo arrancou a terrina quente das suas mos, sorveu o molho branco ruidosamente da terrina mesmo, depois colocou-a sobre a mesa e comeu 
o resto da vitela com as mos, roncando, como se estivesse comendo o picadinho do Alberi. Enquanto os outros comiam a sobremesa, Paulo ficou encurvado na sua cadeira, 
finalmente em silncio, com a cabea pendente e o olhar fixo na toalha. No levantou a cabea nem quando Lucdio, surpreendendo a todos, props-se a fazer o brinde 
final, o brinde do Ramos, com o conhaque.
        - No pode - protestou Samuel. - Voc no  do Clube.
        Mas eu, Pedro e Tiago o convencemos a deixar Lucdio falar.
        Afinal, o Clube j quase no existia mais.
        Lucdio ergueu seu copo de conhaque. Era a primeira vez que aceitava o conhaque. E a primeira vez que no ficaria de p ao lado da mesa, apenas respondendo 
a perguntas sobre os pratos que servia. Ele tinha frustrado a minha expectativa de ue seria um bom contador de histrias, e que teria outras histrias como a do 
clube do fugu para contar. Comportava-se como um cozinheiro agradecido por ser tratado como um igual pelos patres e convidado a sentar  mesa, mas que conhecia 
o seu lugar e mantinha o respeito. Agora ia falar. Levantou o copo de conhaque olhando para Samuel e disse:
        - Que todos os amigos tenham a recompensa das suas virtudes, e os inimigos uma medida do que merecem.
        Samuel levantou seu copo para Lucdio. Disse:
        - Do que me acusas, eu fiz. E mais, muito mais. O tempo o revelar. Isso  passado, e eu tambm. Mas o que s tu, que desta forma me derrotas?
        E Lucdio:
        - Sou mais vtima de pecados do que pecador.
        - Eu no estou entendendo nada - disse Paulo, subitamente redivivo.
        Foram as suas ltimas palavras.
        - Nada vir de nada - disse Samuel.
        E ele e Lucdio beberam o conhaque de um gole s, ao mesmo tempo.
        
        Combinamos que o jantar seguinte seria o do Tiago. Mesmo esquema: meu apartamento, Lucdio na cozinha. Tiago comeou a dizer "E quem ser o enve... mas se 
conteve a tempo. Lucdio trocou seu avental pelo palet elegante, despediu-se formalmente de todos, menos de Samuel, e saiu. Tiago saiu logo em seguida. Pedro levou 
Paulo para casa. Antes de sair, Paulo me deu um longo abrao, mas Samuel disse "Sai daqui, seu crpula" e se recusou a abra-lo. Samuel ficou estirado num dos sofs 
da sala. Perguntou se podia dormir ali aquela noite. Respondi que sim.
        Ele estava com o queixo enterrado no peito, olhando flxamente para uma das minhas paredes nuas.
        - O Lucdio sabia que o Ramos morreu de Aids. Como?
        - Algum contou.
        - Voc e o Lucdio j se conheciam.
        Ele no respondeu.
        - Por que voc no disse nada, na primeira vez em que o viu aqui?
        Ele demorou para falar. Finalmente fechou os olhos, suspirou e disse:
        - Eu queria ver at onde ele iria.
        - E por qu...
        Mas Samuel estava fazendo um gesto com as mos, querendo dizer que no diria mais nada aquela noite.
        
        
        
        
        
        
     8
     Kid Chocolate, Detetive
        
        Depois da morte do pai, Pedro levara a me para viver com ele e sua terceira mulher e dona Nna rapidamente tomara conta da casa e acabara livrando-se da 
nora, no sem antes acus-la de vrios crimes contra a higiene, do lar e do marido. Tnhamos certeza de que dona Nina ainda dava banho no Pedro todos os dias e lhe 
dizia o que vestir. Mas dona Nina tinha falhado no dia do enterro do Paulo. Pedro apareceu no velrio de julho sem gravata e com a barba por fazer. Senti. que as 
pessoas no velrio estavam nos isolando acintosamente, e que S no tnhamos sido expulsos do local porque no valamos o escndalo. Pedro, Tiago e eu ficamos perfilados 
num canto longe do caixo e as pessoas nos lanavam olhares de censura e incompreenso, e o aspecto malcuidado do Pedro no ajudava - para no falar nas meias de 
l que eu usava com as sandlias e o fato que tambm no fizera a barba depois de receber a notcia da morte de Paulo, naquela manh. Samuel no apareceu no velrio. 
Quando eu acordara para receber as tropas da minha madrasta convocadas para limpar o apartamento ele j tinha ido embora. Lvia chegou no apartamento junto com as 
faxineiras, dizendo "Eu no acredito, Zi. Eu no acredito. Vocs fizeram o jantar. Eu no acredito. Eu no acredito. Quem vai morrer desta vez?" Eu no tinha jurado 
que no haveria mais jantares? No, eu no jurei, eu... Tocou o telefone e era a notcia da morte do Paulo. Ele tinha se deitado enrolado na bandeira vermelha e 
fizera uma coisa estranha, amarrara seus velhos tnis do futebol de salo em volta do pescoo, ele que desde menino no jogava futebol de salo, e morrera assim. 
Quando soube dos tnis amarrados no pescoo, Pedro disse: "O que ser que eu vou fazer?"
        - Como?
        - Vou fazer alguma coisa parecida. Vou falar com a Mara.
        - O que, Pedro?
        - A Mara saber o que eu devo fazer. Como eu devo morrer.
        Ele estava com os olhos injetados, o rosto inchado e os cabelos em desalinho. Pela primeira vez desde que o conhecera, com doze anos, eu via Pedro assim, 
sem o controle da prpria imagem. Pedro descobrindo como seria um mundo sem a dona Nina.
        - Eu sou o prximo, como vocs sabem - disse Pedro. 
        Com um certo orgulho.
        Mara no estava no velrio de julho. Mas estava o sr. Spector.
        Que me abanou de longe e disse, com mmica e caretas, que nosso assunto poderia esperar, no era momento, depois, depois, ele me procuraria. E estava Gisela, 
que se aproximou de ns e anunciou que, depois de todas aquelas mortes suspeitas, tinha comeado a investigar a morte de Abel.
        Mandaria exumar o corpo. E que nos preparssemos, porque iria fazer barulho. Lembrei do que Ramos disse uma vez, na hora do conhaque, sobre as mulheres e 
seu desafio aos homens. Todas as mulheres vinham de duas linhagens, a judaico-crist e a grega. As da linhagem judaico-crist descendiam de Eva, que Deus tinha feito 
de uma costela de Ado para servir o homem, tent-lo e acompanh-lo na sua queda e na sua runa. As da linhagem grega descendiam de Atena, que Zeus tirara do seu 
prprio crebro, e no perdiam oportunidade de lembrar que vinham da cabea de um deus e nada tinham a ver com as nossas entranhas ou a nossa danao.
        Gisela era da linhagem da cabea.
        
        Lvia tambm no apareceu no velrio. Mas estava me esperando no apartamento depois do enterro. E recrutara uma figura inesperada para me confrontar com 
minha loucura e tentar me trazer de volta  razo. Uma figura que eu raramente via. Meu pai. Foi ele quem mais falou durante a reunio para me salvar, contra um 
fundo da Lvia dizendo, num recitativo "Eu no acredito, eu no acredito", s variando a acentuao entre o "no' e o "acredito". Meu pai queria entender. Eu sabia 
o que estavam dizendo pela cidade? Que ns tnhamos enlouquecido, que ns estvamos metidos numa espcie de verso gastronmica de roleta russa, que havia funerrias 
brigando por um lugar na nossa porta todas as vezes que nos reunamos? Aquilo precisava parar. Tnhamos sorte por ainda no ter havido uma investigao policial, 
ou um processo, ou um escndalo na imprensa. Aquilo precisava parar!
        E ento eu disse uma coisa que me surpreendeu. Eu disse: - Parar agora no seria justo com os que j morreram.
        - O qu?
        - Eu no acredito - disse a Lvia. - Eu no acredito. Eu no acredito.
        Meu pai perdeu a pacincia. Isto normalmente ocorre em dez minutos, toda vez que conversamos. Naquele dia demorou um pouco mais.
        Ele insistiu para que eu tomasse jeito. Eu ainda escrevia? Queria publicar um livro? A Lvia dizia que eu tinha talento. Ele pagaria o livro. Talvez uma 
viagem? Tudo para eu parar com aquela loucura. Eu fiquei mudo, com grande esforo. Finalmente ele perdeu a pacincia. Se eu quisesse continuar com aquela demncia 
que continuasse, mas no com o dinheiro dele. Se eu quisesse me matar, que me matasse. Ele no financiaria. E que eu no contasse mais com minha madrasta para limpar 
a sujeira das nossas orgias macabras.
        
        Meu pai foi embora.
        A Lvia ficou.
        - Eu no acredito. Eu no acredito. Eu no acredito.
        - Voc no entende.
        - No entendo mesmo, Zi.
        -  a turma. Tudo isto  um,  um...
        Era um qu? Eu no podia explicar o que eu mesmo no entendia.
        Lvia:
        - A turma, a turma. Um bando de fracassados e inteis que nunca fizeram nada na vida a no ser se empanturrar e desgraar a vida dos outros. Me diz um que 
fez alguma coisa que valesse a pena. O pobrezinho do Marcos ainda tentou mas vocs no deixaram. O Pedro quebrou as empresas da famlia, o Joo era um picareta de 
luxo, o Paulo era insuportvel... E o Samuel  um doente. E um louco. Devia estar internado. No duvido que tudo isto seja coisa dele. No duvido nada.
        Esse tal de Lucdio eu nem sei se existe. Deve ser inveno sua.
        - No, Lvia.  que voc no nos conheceu antes... disto.
        - No comece a me falar no Ramos. Por favor. Pelo que voc me conta, era o mais doente de todos.
        Lvia no tinha nos conhecido antes. No podia entender. No participara dos rituais. Depois da morte do Ramos as mulheres tinham comeado a freqentar nossos 
jantares, e s o que ouviam eram histrias do Ramos, dos seus discursos na hora do conhaque, da vez em que nos levara num inesquecvel tour pela Borgonha, da vez 
em que... "Parecem os apstolos falando de Cristo!", protestara, finalmente, a ltima mulher do Pedro. "Parem com esse Ramos!"
        Naquele mesmo dia, depois que Lvia saiu, com meu juramento de que  pararia com os jantares e faria, sim, um tratamento psicolgico e alimentar com fibras, 
muitas fibras, - Orientado por ela, Tiago foi ao apartamento. Ou foi em outro dia? No, foi no mesmo dia. Estou escrevendo sem muito rigor, estou bebendo vinho sm 
parar h algumas horas, no me lembro de tudo, mas tudo aconteceu assim, mais ou menos assim, juro. Tiago foi ao apartamento e contou que depois do jantar do Pedro 
seguira Lucdio at sua casa. Discretamente, claro. No queramos fazer nada que espantasse nosso genial cozinheiro, nem sugerir que as mortes tinham algo a ver 
com ele nem demonstrar qualquer interesse pela sua vida que fosse alm do que sua formalidade permitia.
        Mas eu sabia onde Lucdio morava?
        - Onde?
        - Na casa do Ramos.
        - Como, na casa do Ramos?
        - Mesmo edifcio, mesmo apartamento. Vi o nome dele na frente.
        
        Tiago, velho leitor de livros policiais, tinha decidido  investigar as nossas mortes. No me surpreendi que j soubesse tanta coisa - eu sabia, por exemplo, 
que o Joo estava com cncer, o que nem sua famlia sabia? - porque Tiago era um obsessivo. Era o mais obsessivo de ns todos. No era apenas viciado em chocolate. 
Sabia tudo sobre chocolate, a sua histria, a sua composio, as possveis explicaes qumicas para a sua dependncia. Pertencia a uma sociedade internacional de 
choclatras que trocavam informaes sobre sua paixo comum. Numa das nossas idas  Europa, deixara o grupo para ir conhecer um correspondente seu em Bruxelas e 
voltara maravilhado. Fora convidado a dormir na casa do homem, e no s havia uma espcie de arca ao lado da cama cheia de chocolate como a prpria arca era feita 
de chocolate, para o caso de haver uma falha no suprimento e a pessoa acordar no meio da noite precisando comer chocolate. Fazia parte do folclore da turma a vez 
em que a Milene, responsvel pela iniciao sexual de todos ns, se oferecera ao Tiago em troca de uma barra de chocolate e Tiago preferira ficar com a sua virgindade 
e a barra. Anos depois sacrificara um grande contrato de arquitetura para comparecer a um festival de chocolate na Sua e depois disso nunca mais recuperara sua 
reputao como arquiteto. E era um obsessivo em tudo. Na sua casa havia uma pea s para seus livros policiais, que enchiam as estantes contra as quatro paredes 
e estavam empilhados no cho e em cima de mesas. Uma vez Ramos dissera: "O homem  o nico animal que sempre quer mais do que precisa. O homem  o homem porque quer 
mais". Kid Chocolate queria tudo, e queria saber tudo. Sua curiosidade tambm era voraz. Me contou que tinha investigado a histria do peixe venenoso. Existia uma 
cidade chamada Kushimoto no Japo, e um peixe chamado fugu que matava se no fosse bem preparado, mas a tal confraria secreta de provadores do fugu no existia, 
ou ento era mesmo secretssima, No encontrara a escama plastificada em nenhuma loja de artigos japoneses mas a descrevera e tinham lhe dito que podia ser a escama 
de um peixe hermafrodita, que circulava muito entre homossexuais, um pouco como a semente de cacau que Tiago tinha no chaveiro e o identificava como manaco por 
chocolate entre os outros manacos. Isso, advertiu Tiago, se o japons da loja tambm no estivesse inventando uma histria. Kid Chocolate e eu fomos at o edifcio. 
Fica perto do meu, fomos a p. Escurecia. Fazia frio. S a curiosidade instigada pelo Kid para me tirar da minha casa de esquilo, de onde ultimamente s saa para 
comprar vinhos no shopping e ir ao velrio do ms. L estava o nome do Lucdio como Ocupante do 617, o apartamento que fora do Ramos. O porteiro nos olhou com desconfiana, 
principalmente para as minhas sandlias com meias, mas sucumbiu  insistncia simptica do Kid e comeou a falar. O moo do 617 se mudara havia pouco para o edifcio.
        Coisa de um ano. Parece que herdara o apartamento do seu Ramos. Antes morava em Paris, parece. Descrevi o Samuel, o que era fcil, era s descrever uma caveira, 
e perguntei se o porteiro o tinha visto entrando ou saindo do edifcio. Ele disse "O seu Samuel? Conheo. Vinha muito aqui. Mas no tempo do seu Ramos, no agora". 
O seu Lucdio era um homem muito reservado, muito educado mas muito fechado. Saa pouco e no recebia ningum. No, no, no tinha famlia, parece. Devia estar no 
apartamento naquele momento. Ns gostaramos de ser anunciados? No, obrigado. Pedimos para ele no dizer ao Lucdio que estivramos ali. E batemos em retirada. 
A ltima coisa que queramos era o Lucdio pensar que estvamos nos metendo em sua vida.
        
        Dias depois, um telefonema da Mara. Quieto, corao. Estava preocupada com o Pedro. Ele a procurara, pela primeira vez em muitos anos. Queria planejar o 
seu velrio e achava que ela podia ajud-lo. 
        - Planejar o velrio?
        - Ele diz que  um privilgio. Saber o dia e a forma da sua morte e poder planejar o fim, dar um significado  sua vida. E quer preparar tudo. Quer que eu 
o ajude a produzir o velrio. Disse que s eu me lembro de certas coisas da vida dele, que at ele esqueceu. Est completamente louco. Queria at trazer o grupo 
de violinistas que tocou na nossa mesa, em Paris, na nossa lua-de-mel, h mais de vinte anos, para tocar no velrio. Eram uns velhinhos, j devem ter morrido todos. 
E uma loucura.
        No que  que vocs se meteram, Daniel?
        - A dona Nina est sabendo disso?
        - A dona Nina h anos que saiu do ar. Passa o dia inteiro limpando e desinfetando os banheiros da casa do Pedro. E agora est procurando a flauta.
        - Que flauta?
        - A flauta doce que o Pedro tocava quando era garoto. Ele no encontrou, e ela est revirando a casa atrs da flauta, mesmo sem saber para o que . E aproveitando 
para limpar e desinfetar tudo no caminho.
        - O que ele quer com a flauta?
        - Sei l. Quer morrer com ela. Ele disse que o Paulo morreu com as chuteiras amarradas no pescoo. Sei l no que ele est pensando. 
        Vocs precisam acabar com isso, Daniel!
        A voz de Mara no meu ouvido. Acho que eu nunca a tivera to perto do ouvido. A voz da mulher dos nossos sonhos, maravilhosa, mesmo indignada, mesmo repetindo 
a frase dos outros, a frase que ns mais ouvamos naqueles dias, que era preciso acabar com aquela loucura. Mas no era loucura. Agora eu sabia que no era loucura. 
Eu no podia dizer isso para a Mara, mas eu compreendia o Pedro. No corredor da morte, tudo era definitivo, tudo era ritual. Nem os violinistas de Paris tocando 
no velrio parecia uma m idia. No corrredor da morte, voc j ultrapassou at o senso do ridculo, voc quer s significado.
        Kid Chocolate e Lucdio marcaram um encontro no meu apartamento para planejar o jantar de agosto. Tiago chegou mais cedo, tinha novidades. A Gisela estava 
falando com advogados e pensando em abrir um processo, contra mim, especificamente, como dono da cozinha mortal, j que o Clube do Picadinho tinha estatutos e braso, 
feitos pelo Ramos, mas no tinha identidade jurdica. E as investigaes do Kid comeavam a esclarecer coisas que ns, obscuramente, j sabamos, ou desconfivamos, 
mas nas quais nunca quisemos nos aprofundar.
        - O Samuel foi criado pelo Ramos, desde garoto. O Ramos pagou seus estudos e at uma certa idade o Samuel viveu com ele. Quando ns conhecemos o Samuel, 
no bar do Alberi, ele ainda morava com o Ramos. 
        Samuel Quatro Ovos, nosso heri. Cafajeste e sbio. Stiro insacivel e santo magro. O que mais nos amava e mais nos insultava, o que nos convencera que 
teramos o mundo e agora estava nos castigando pelo nosso fracasso em conquist-lo. Ele nos educara pelo apetite e estava nos matando pelo apetite, docemente. Nunca 
soubemos nada dele.
        Talvez porque o preferssemos como um mistrio. Quando algum perguntava sobre os pais do Samuel ele respondia que tinham morrido da gripe espanhola. E se 
algum lembrasse que era impossvel, a epidemia de gripe espanhola chegara ao Brasil no comeo do sculo, dizia "Ento era a gripe asitica, no pedi os documentos".
        - Ele e Lucdio j se conheciam?
        - No sei - disse o Kid. - A sua tese, no sei no.
        Minha tese era que o Samuel estava nos matando com a ajuda do Lucdio. Samuel estava, metodicamente, praticando eutansia no Clube do Picadinho. Despachando 
os anjos um a um, livrando-os da companhia incmoda do seu corpo e da sua biografia insignificante, separando a Zulmira da Zenaide em definitivo.
        - Sei no - disse o Kid.
        - De qualquer jeito, a sua investigao no leva a nada. Ns todos vamos morrer de qualquer jeito.
        Tiago reagiu.
        - Epa. Eu no pretendo morrer to cedo.
        Me surpreendi com a reao do Kid. Achava que, se participara do ritual at ali, era porque estava disposto a ir at o seu fim. Eu mesmo j tinha comeado 
a pensar no cenrio que montaria para morrer, depois de comer meu gigot d'agncau envenenado. Seria certamente algo envolvendo meu time de botes ou meus vinhos Saint-Estphe. 
Talvez uma fotografia da Mara. Sim, Vernica Roberta no poderia faltar no tableau alegrico em que me encontrariam morto. Talvez ao lado de um bilhete, de um tratado, 
de um romance de suicida.
        
        Lucdio chegou, formal e elegante como sempre. Disse que estava pensando em fazer uma espcie de rodzio de sufls para o jantar do Tiago. Trs sufls em 
seqncia, sem entrada e sem mais nada. Eu disse que o Pedro adorava sufls. Lucdio ficou em Silncio. Depois de acertar os detalhes do jantar, Kid Chocolate aproveitou 
para tirar mais algumas informaes de Lucdio. Apenas para ser agradvel, nada que o espantasse. As reunies da confraria do fugu, em Kushimoto, quando eram?
        No fim do ano, respondeu Lucdio.
        - Quer dizer que no ano que vem podemos no ter voc entre ns... - brincou Tiago.
        Lucdio continuou srio.
        - No ano que vem eu no terei mais o que fazer aqui.
        - J ter nos matado a todos, pensei. E depois de nos matarem todos, o que fariam os dois, ele e Samuel? Caminhariam de mos dadas rumo ao sol nascente, 
como irmos que eram na ordem da escama do peixe hermafrodita? Ou Samuel apenas contratara Lucdio para fazer o servio?
        Ou o servio incluiria matar o prprio Samuel que, pela ordem alfabtica, seria o prximo depois do Pedro? No era impossvel que aquele fosse o tableau 
armado por Samuel para o seu prprio suicdio. 
        Antes dele, toda a turma. Antes de se matar, mataria todos os que ficariam com uma memria dele. Mataria a si mesmo e  sua posteridade. 
        Um suicdio total.
        
        A preparao de Pedro para ser um executivo perfeito inclura aulas de histria da arte e msica, e antes de encontrar a perdio conosco no bar do Alberi 
ele chegara a ser um bom tocador de msica medieval na flauta doce. Pedro trouxe uma flauta doce para o jantar do Tiago. No a flauta que tocava como garoto, que 
dona Nina no conseguira encontrar, mas uma nova, igual, que comprara dois dias antes e passara dois dias tentando reaprender. Sim, daria um recital de flauta doce 
antes do jantar, antes dos sufls. Tocar flauta doce era a ltima coisa que ele fizera bem na vida. Destrura as empresas deixadas pelo pai, destrura seu casamento 
com a Marinha, mas se orgulhava de duas coisas, dos seus sufls e da sua flauta doce. Me disse tudo isso quando fui abrir a porta para ele, me agarrando pela frente 
da camisa. Estava de terno completo, com o palet coberto de condecoraes falsas. Botes de candidatos, escudos de times de futebol, medalhas de mrito industrial 
recebidas pelo pai, at tampinhas de garrafa presas na lapela. E estava perfumado como nunca.
        - Um toque de anjo, entende? Um toque de anjo. Era o que a minha professora de flauta doce dizia. Voc tem um toque de anjo. Isso no primeiro sopro que eu 
dei na flauta. Me lembro at hoje.
        Tentei liberar a minha camisa.
        - Entra, Pedro.
        Mas ele no me largava.
        - Tive que enganar todo mundo em casa. No queriam me deixar sair.  possvel at que a Mara aparea por aqui. Para me resgatar. A Marinha. Ela reapareceu, 
Casco. A minha Marinha voltou.
        - Vamos entrar, Pedro.
        - Olha, Casco. Quero que voc fale no meu enterro. Certo? Tem que ser voc. J acertei tudo. A Marinha sabe o que fazer. Quero ver voc l, Daniel!
        Est bem, est bem. Vamos entrar. A turma j est ai.
        A turma cabia toda no meu escritrio. Samuel, Tiago, e eu. O Clube do Picadinho feito picadinho. Tnhamos mais gente para brindar do que para fazer os brindes. 
Felizmente, Pedro esqueceu a flauta e fomos poupados do recital. Ele tinha se acalmado um pouco. Mas quando fomos para a mesa, convocados pelo Lucdio, fez questo 
de dizer algumas palavras, formalmente, antes da comida. Disse que ns no sabamos, mas durante muito tempo dera dinheiro para o Paulo e as suas causas. Dera dinheiro 
at para a guerrilha armada. Era uma pena o Paulo no estar ali para confirmar. Paulo o chamava de reacionrio de merda mas era para disfarar. E fora ele quem dera 
um emprego ao Paulo quando ele no se reelegera.
        - Olha - disse Pedro, como se a idia acabasse de lhe ocorrer -, acho que as nossas empresas faliram porque eu dei dinheiro para a esquerda.
        Ns todos sabamos que Pedro tinha apoiado a repressao ativamente, e que s empregara o Paulo porque o irmo deste, que era da polcia poltica, pedira. 
Mas aquela era, para Pedro, a hora da verdade, para que estrag-la com a verdade? O Clube do Picadinho cuida dos seus. 
        Que viessem os sufls.
        
        Lucdio no precisou oferecer o pouco de sufl que sobrara na cozinha para apenas mais um. Pedro, que comera de todos os sufls da seqncia com entusiasmo 
crescente, gritando "Melhores do que os meus! 
        Melhores do que os meus!", no esperou a oferta ritual da ltima poro.
        Disse "Mais, quero mais". E "O homem  o homem porque quer mais!" E Lucdio trouxe a ltima poro da cozinha, que Pedro comeu quase de uma garfada s.
        Samuel, depois do conhaque, olhando fixamente para Lucdio, enquanto Pedro fazia um levantamento das melhores recordaes da sua vida, e conclua que as 
maiores alegrias tinham sido na companhia dos seus cachorros, primeiro os cachorros, depois a Marinha:
        - A arte das nossas necessidades  estranha, e faz de coisas vis, preciosidades.
        Terceiro ato, cena dois.
        Mas se Samuel e Lucdio eram cmplices no nosso massacre cerimonial, como explicar o dio no olhar do Samuel?
        
        
        
        
        
     9
     O Clube das Moscas
        
        "Filoctetes", disse Samuel. Tnhamos sido impedidos de entrar na capela em que Pedro estava sendo velado pelo irmo de Paulo, ex- DOPS, hoje um aposentado 
sorridente, que nos pedira para respeitar a dor da famlia. "Vocs no", dissera, sorrindo. Pela porta aberta da capela vamos dona Nina ao lado do caixo aberto, 
espantando moscas imaginrias de perto do filho e, vez que outra, reajeitando um fio de cabelo ou alisando a gravata do morto. Eu, Samuel e Tiago ramos como Filoctetes, 
o guerreiro ferido que ningum queria por perto, cuja ferida fedia.
        Cheirvamos a mortalidade.
        Passramos de esquisitos a grotescos, nosso lugar era na ilha do exlio de Filoctetes, longe das pessoas normais. At a Mara entrara na capela sem olhar 
para o nosso lado.
        Nenhuma das especificaes do Pedro para seu prprio velrio estava sendo seguida e um discurso meu  beira do tmulo tinha sido vetado com vigor unnime 
pela famlia, principalmente pela dona Nina, que guardava de mim a lembrana de um menino insalubre cuja proximidade do caixo seria certamente uma ameaa para o 
morto, O Casco no! Na noite anterior, Pedro chegara tarde do jantar e no entrara em casa.
        Dirigira-se ao canil nos fundos do quintal. Decidira morrer entre os seus cachorros. Fora encontrado morto abraado a um boxer chamado Champion e sendo lambido 
por outro chamado Jackson.
        
        Samuel, Tiago e eu samos a caminhar pelo cemitrio. Samuel estava ainda mais encurvado e sombrio, parecia envelhecer alguns anos a cada velrio. Na noite 
anterior tnhamos concludo que estvamos num dilema: era recm-agosto e no havia mais membros do Clube do Picadinho para oferecer jantares. Tiago chegara a sugerir 
que se desse o ano por encerrado e o Clube do Picadinho como extinto, mas Samuel e eu no concordramos. Pedro j se considerava morto e nem se manifestara.
        Ningum disse, mas no parecia justo encerrar aquilo, o que quer que fosse aquilo, daquela maneira. No era justo com os mortos. Foi quando Lucdio props 
oferecer ele mesmo um jantar. Faria crepes. Um jantar s de crepes. Por conta dele, um brinde, um abono. E assim ficara combinado que o jantar de setembro, no meu 
apartamento, seria uma homenagem de Lucdio ao Clube do Picadinho, aos seus mortos e aos seus sobreviventes, e seria um singelo jantar de crepes.
        - Se a ordem  alfabtica, o prximo  voc, Samuel - disse Tiago no cemitrio.
        - No gosto tanto assim de crepe - disse Samuel.
        - Nem eu disse eu.
        - Nem eu disse Tiago.
        Nenhum de ns pediria mais crepes. Haveria um jantar em setembro, mas ningum pediria mais e portanto eram poucas as possibilidades de haver um velrio em 
setembro.
         
        Naquele fim de tarde, enquanto Pedro era velado na capela, Samuel, Tiago e eu, os enjeitados, rondamos pelas alamedas do cemitrio arrastando atrs de ns 
um silncio que ficava cada vez mais pesado. Nem eu, que no sei ficar quieto, dizia qualquer coisa, e era visvel que Kid Chocolate se controlava para no fazer 
as perguntas que queria fazer ao Samuel. Chegou a puxar ar para falar uma dezena de vezes mas no teve coragem. Finalmente quem falou foi o Samuel, depois de parar 
diante da esttua de um anjo empunhando uma espada que adornava um dos mausolus.
        - Em vrias culturas - comeou Samuel, quando retomamos a caminhada, no tom de quem argumenta para si mesmo - existe a figura do Executor Sagrado. E o assassino 
necessrio, que faz a sua parte num ritual necessrio, e nem sempre  compreendido. Quase sempre  banido, e s  compreendido depois, quando vira mito, O prprio 
Caim, que na Bblia  um vilo, se transforma com o tempo numa figura respeitvel.
        Caim o patriarca, o fundador de cidades...
        Pensei que ele estivesse fazendo a sua defesa e arrisquei:
        - O Executor Sagrado se autodetermina ou  determinado por outro?
        - Ningum o determina. A histria o determina. A necessidade o determina.
        - Mas quem decide que o ritual  necessrio? No nosso caso?
        - Como, no nosso caso?
        Tnhamos parado de caminhar.
        - No nosso caso, Samuel.
        Tiago no se conteve. Kid Chocolate, o obsessivo, precisava ser prtico.
        - Voc e o Lucdio j se conheciam, no , Samuel?
        Ele ficou em silncio. Depois fez que sim com a cabea. E acrescentou:
        - Ligeiramente.
        - Ele  o Executor Sagrado. E voc o que ?
        A pergunta fora minha. Ele sacudiu a cabea tristemente.
        Recomeou a caminhar e ns o seguimos. No se virou para dizer:
        - Vocs no esto entendendo nada.
        Chegamos de volta na capela quando o cortejo estava saindo.
        Fomos atrs do cortejo, mantendo a nossa distncia de exilados. Avistei a Gisela, que me virou a cara. E o sr. Spector, que mais uma vez me fez sinais semafricos 
que entendi como o anncio de uma visita prxima.
        Ficamos longe enquanto Pedro era colocado no jazigo da famlia, ao lado do pai, sem nenhum discurso. Mara amparava dona Nina, que parecia tranqila. Seu 
Pedrinho estava finalmente livre de qualquer contgio. S quando a pequena multido comeou a se dispersar  que Samuel, que ficara do meu lado, falou outra vez.
        - No nosso caso, eu sou o executado.
        Tnhamos ido ao velrio no carro do Tiago. Eu no tenho carro.
        Nunca me deixaram dirigir. Desde pequeno tenho uma vocao natural para o desastre. E a minha nica vocao aparente. Na volta do cemitrio, Tiago disse:
        - Vocs eu no sei, mas eu acho que a gente deve acabar com essa brincadeira.
        Samuel e eu no dissemos nada. Tiago continuou:
        - Tudo bem. Vamos fazer nosso ltimo jantar, comer os nossos crepes, e parar com essa histria. Hein?
        Continuamos em silncio. Samuel no banco da frente ao lado do Kid, eu atrs.
        - E acho que devemos denunciar o Lucdio antes que algum o faa. A Gisela est se movimentando. Diz que vai investigar a morte do Abel, vai processar. Qualquer 
dia prendem o Lucdio e nos prendem tambm, como, sei l, cmplices. E outra coisa...
        - "Wanton boys" - disse eu.
        Samuel virou a cabea.
        - O qu?
        - "Wanton boys".
        - De onde ?
        - Shakespeare. Rei Lear.
        - Vocs no esto me ouvindo, porra? - explodiu o Kid.
        
        Est aqui a citao. Comprei um Rei Lear de bolso no shopping no dia seguinte. Meu ingls  pior do que minha memria, no foi fcil localizar todas as citaes 
que tinha ouvido da boca do Lucdio e do Samuel naqueles meses. Mas "Wanton boy" est aqui. Ato quatro, cena um. "As flies to wanton boys are we to the gods; they 
kil us for their sport." Como moscas para meninos maus somos ns para os deuses, eles nos matam para o seu divertimento. Ramos me falara nos seus "wanton boys ", 
um no Brasil e outro em Paris. O do Brasil era o Samuel, um "wanton boy" para ningum acrescentar defeito. O de Paris seria Lucdio. Lucdio talvez tivesse feito 
seu curso de culinria financiado pelo Ramos. Que transmitira aos dois seu gosto por "Shakespeare and sauces". Que provavelmente os fizera decorar todo o Rei Lear. 
O que, a julgar pela amostra que eu estava tendo, no era exatamente uma prova de amor. Na verso que comprei no shopping as notas de p de pgina explicando as 
palavras ininteligveis ocupam boa parte da pgina. As explicaes so maiores do que o texto! Durante aqueles meses Lucdio e Samuel tinham feito um torneio de 
citaes do Rei Lear. 
        Fosse o que fosse que estivesse acontecendo, aquela era uma histria entre Lucdio e Samuel. No era sobre ns, sobre o nosso castigo ou a nossa redeno. 
"Eu sou o executado", dissera Samuel. Ns ramos apenas as moscas. Estvamos morrendo como moscas.
        
        Meu pai cumpriu sua ameaa de cortar o meu sustento. No est entrando nada no banco. A Lvia no me deixar morrer de fome, mas preciso arranjar um jeito 
de ganhar dinheiro para comprar minhas nozes. 
        No sei fazer nada. Uma vez pensei em escrever livros de culinria especializados. Um guia s de comidas afrodisacas, outro s de comidas vermelhas, ou 
brancas, ou marrons. Um livro de receitas de comidas exticas de vrias partes do mundo, como cachorro, macaco, formiga, gafanhoto. Uma compilao de casos de comida 
feita ou consumida em situaes estranhas, como ovos fitados no asfalto, pizzas com trs metros de dimetro ou gelia lambida do umbigo. No deve haver mercado para 
as minhas histrias das xifpagas lsbicas, ainda mais agora que elas entraram na sua fase de terror terminal, com Zenaide, forada a uma viglia eterna para no 
ser mordida pela irm vampira, mantendo-se acordada e Zulmira distrada com interminveis divagaes sobre a condio humana, o apetite, a obsesso e a morte. Lvia 
acha que eu devia escrever para crianas, j que nunca cresci. Tenho pensado em maneiras de adaptar as histrias das xifpagas lsbicas para crianas.
        
        Tiago chegou no meu apartamento para o jantar dos crepes de bom humor. Disse:
        - Vamos combinar que hoje ningum envenena ningum. Hein?
        Lucdio estava na cozinha. Samuel estava afundado numa das poltronas de couro do meu escritrio. Depois de abrir a porta para Tiago, voltei  poltrona oposta, 
da qual, durante os ltimos quinze minutos, eu observara o silncio sinistro de Samuel. No demos qualquer ateno ao Tiago, que recolheu seu sorriso, atirou-se 
em outra poltrona de couro e tambm resignou-se ao silncio reinante. Samuel no dissera uma palavra desde que chegara. Depois de mais cinco minutos de silncio, 
falei eu.
        - Voc  quem est sendo executado.
        - .
        - Pelo Lucdio.
        - .
        - Por qu?
        - Vingana.
        Ficamos esperando que Samuel continuasse, mas ele no estava disposto a facilitar nosso interrogatrio.
        - O que o Lucdio est vingando? - perguntou Tiago.
        - A morte do Ramos.
        Tiago e eu nos entreolhamos. Era a minha vez:
        - O que voc teve a ver com a morte do Ramos?
        - Eu fui o executor.
        Pensei imediatamente na Aids. Samuel se sentia responsvel pela doena do Ramos, de quem era amante. Mas Tiago no teve o mesmo raciocnio. Kid Chocolate 
no lidava com metforas. Preferia as suas histrias policiais simples e diretas.
        - O Ramos morreu de Aids.
        - No, morreu envenenado. Eu o envenenei.
        Continuei pensando que era metfora.
        - Voc o envenenou com o vrus.
        - No, envenenei com o molho de menta.
        
        Lucdio entrou no escritrio e disse que havia dois tipos de caviar para servir nos crepes de entrada. Preto ou vermelho. Gostaramos dos dois ou tnhamos 
alguma preferncia? Votamos nos dois por unanimidade. Lucdio voltou para a cozinha.
        
        O Executor Sagrado, afinal, era Samuel. Ele executara o Ramos para apressar a sua morte. No estava pensando em Lucdio quando lembrara o Executor Sagrado, 
no cemitrio. Era ele o assassino necessrio. Lucdio era a retribuio. Ns ramos as moscas.
        - Espera um pouquinho, espera um pouquinho...
        Kid Chocolate no estava entendendo nada. Pediu ajuda.
        - Voc envenenou o Ramos, o Lucdio ficou sabendo...
        Eu interrompi:
        - Como o Lucdio ficou sabendo?
        - O Ramos contou. Escreveu para ele do hospital, no ltimo dia.
        - O Ramos sabia que voc o tinha envenenado?
        - O Ramos pediu que eu o envenenasse.
        - Espera um pouquinho, espera um pouquinho...
        - Voc ps veneno no molho de menta, no ltimo jantar do Ramos, porque sabia que s ele comeria molho de menta com o cordeiro. Porque voc o amava e queria 
encurtar seu sofrimento. Porque ele pediu. 
        Samuel estava com os olhos fechados, sustentando a cabea com as pontas dos dedos nas tmporas. Abriu os olhos e me fitou por um longo tempo antes de dizer:
        - Eu amava todos vocs, Daniel.
        Kid Chocolate estava impaciente.
        - Espera um pouquinho. Vamos recapitular...
        - O que, exatamente, voc esperava de ns, Samuel? Voc devia saber, desde o comeo, que nenhum de ns ia dar em nada. Desde os tempos do bar do Alberi, 
voc sabia que ningum ali ia ser porra alguma. Voc quis nos salvar, voc teve todos os vcios por ns, voc brigou por ns, voc quase se matou por ns, voc at 
comeu a Mara por ns, e nunca soubemos o que voc esperava que ns fssemos.
        - E agora  tarde disse Samuel, sorrindo com seus dentes pretos.
        Tiago queria voltar ao que interessava. Se Lucdio queria se vingar de Samuel pela morte do Ramos, por que no o envenenara primeiro?
        Por que matara toda a turma e deixara Samuel para o fim? Samuel fez um gesto com as duas mos na minha direo, ainda sorrindo. Querendo dizer que me cedia 
O direito de responder por ele. O palco era meu. Porque os dois so meninos maus, Kid. Porque Lucdio queria provar para Samuel que podia ser mais cruel do que ele. 
Porque a maior vingana de Lucdio no era s matar o Samuel, era matar todos os que ele amava, antes. Nosso papel nesta histria toda foi de moscas.
        - E porque ele... - completou Samuel, indicando Lucdio, que acabara de entrar no escritrio para avisar que estava servido -  um crpula.
        E acrescentou, levantando-se da poltrona:
        - No mau sentido.
        
        Fizemos brindes com vodca gelada  fome, ao Ramos, ao Abel, ao Joo, ao Marcos, ao Saulo, ao Paulo e ao Pedro. Lucdio ficou de p ao lado da mesa enquanto 
comamos os crepes de entrada, com caviar vermelho e preto. A conversa nao era com ele.
        - Voc ficou quieto - disse Tiago. - Deixou que ele fosse nos matando um a um...
        - Eu queria ver at onde ele iria - disse Samuel, espremendo limo no caviar preto. - Chame de curiosidade mrbida.
        - Mas, mas...
        Tiago estava a ponto de esquecer o caviar, na sua indignao.
        No pretendia se engasgar com caviar.
        - E o que ns estamos fazendo aqui, Kid? - perguntei. - Por que ns nos deixamos envenenar? Ningum faltou a um jantar do Lucdio. Fora os mortos, claro.
        - Eu sempre vim pela comida, no pelo veneno.
        - Mas veio.
        Samuel acabara seus crepes com caviar. Sempre comia mais depressa do que os outros. Disse:
        - Vocs sabiam, desde o comeo, que isto era uma retribuio.
        Que o Lucdio era um executor. S pensavam que o ritual era com vocs, que a retribuio era com vocs, que O pecado era o de vocs. Todos morreram convencidos 
de que mereciam.
        - Menos o Andr - corrigi.
        - Quem?
        - O Andr.
        Tnhamos esquecido do Andr nos nossos brindes. Andr, o sacrificado acidental. No fim, o nico inocente desta histria.
        - De qualquer jeito, agora acabou - disse Tiago.
        - No acabou - disse Samuel.
        - Acabou, acabou. A Gisela est agindo. Vai processar. Eu tambm vou tomar providncias. Esta loucura acabou. Executor Sagrado, retribuio... Que cretinice 
 esta? O nome disto  assassinato, meus caros.
        Tiago olhou para Lucdio, que estava recolhendo os pratos vazios, e se viu obrigado a acrescentar:
        - Nada pessoal.
        
        Depois dos crepes de entrada vieram crepes com coberturas variadas, que Lucdio espalhou pela mesa. Tiago insistiu que Lucdio sentasse  mesa conosco, para 
mostrar que no havia ressentimentos.
        Afinal, esquecendo o resto, Lucdio era um grande cozinheiro que merecia nossa admirao e respeito. E Tiago viu com satisfao Lucdio provar de tudo que 
tinha feito, junto com os outros.
        Comemos os crepes com moderao. Ningum ali era louco por crepe. Lucdio ofereceu-se para fazer mais alguns mas ns todos recusamos. Para Tiago, o importante 
era no deixar Lucdio longe da nossa vista por um segundo. Principalmente dentro da cozinha.
        - Tem certeza que no quer mais? - perguntou Lucdio a Tiago.
        - Obrigado, no.
        - Sobremesa?
        Tiago hesitou.
        -  crepe, tambm?
        - No. Marquise de chocolate.
        Tiago engoliu em seco.
        - Marquise de chocolate?
        - . Mas tem um problema...
        - Qual?
        - S tem para um. No tive tempo...
        Kid Chocolate nos olhou com uma expresso de dor. O que estavam fazendo com ele?
        - Come voc, Kid - disse eu.
        - Pode comer, Tiago - disse Samuel. - Eu no quero.
        - Mas eu tambm no quero! - gritou Tiago.
        - Ento como eu... - disse Lucdio, comeando a dirigir-se para a cozinha.
        - Espere!
        Lucdio voltou. O Kid perguntou como ele fazia a marquise de chocolate. Lucdio ps-se a descrev-la. A medida que Lucdio falava, Tiago parecia desabar 
lentamente, como uma imploso em cmara lenta.
        Quando Lucdo terminou sua descrio, Tiago estava encurvado sobre a mesa, com os braos pendentes e a testa encostada na toalha. No saiu desta posio 
para pedir:
        - Traz.
        Lucdio, de p ao lado da mesa, enquanto Kid Chocolate devorava a marquise com lgrimas escorrendo pelos lados do rosto:
        - Quem sabe a diferena entre um bobo amargo e um bobo doce?
        - J localizei. Ato um, cena quatro.
        Samuel ergueu-se da sua cadeira e postou-se  frente de Lucdio.
        Samuel:
        - Precisamos marcar o jantar de outubro.
        Lucdio:
        - Dia quinze.
        Samuel:
        - Aqui mesmo.
        Lucdio:
        - Eu cozinho.
        Samuel:
        - Meu prato favorito  picadinho de carne com farofa de ovo e banana frita.
        Lucdio:
        - Seu prato favorito  cassoulet.
        Samuel:
        - Mudei.
        
        
        
        
     10
     A Visita do Sr. Spector
        
        Coisas que amam a noite no amariam noites como aquela. Rei Lear, me pergunte qualquer coisa. "In uch i night..." Foi numa noite de tempestade shakespeariana, 
com relmpagos artificiais e trovoadas de folhas de flandres, que Samuel e Lucdio se encontraram para a cena final da sua histria, no meu apartamento, nos meus 
sales vazios. No enterro do Kid Chocolate, que assistimos de longe porque no nos deixaram entrar no cemitrio, Samuel tinha dito: - Claro que vou ao jantar. Devo 
isso  turma. Em nome da turma, eu libero voc da dvida.
        - Agora  tarde.
        "In such a night..." Chovia, ventava, as minhas vidraas estremeciam e no momento em que Lucdio entrou no grande salo trazendo a bandeja com o picadinho, 
a farofa com ovo e as bananas fritas da cozinha, a luz se apagou. Por um bom tempo s os relmpagos iluminaram a cena, Samuel e eu comendo o picadinho, enchendo 
a boca de picadinho, de farofa com ovo e de banana frita e roncando como  porcos, Lucdio em p ao lado da mesa, com suas costas retas, seu longo avental branco 
e a toalha da mesa e as paredes ficando azuis a cada relampejo, e ns empurrando a comida para dentro com Coca-Cola, como fazamos no bar do Alberi. Quando a luz 
voltou j tnhamos terminado. Lucdio perguntou ao Samuel se ele queria mais. Samuel respondeu que no.
        - No?
        - Olhe, no leve a mal. Mas o picadinho do Alberi era muito melhor do que este. Picadinho no  o seu forte.
        - Tem certeza que no quer mais?
        Samuel demorou a responder. Na rua, cataratas e furaces e os ventos estalando suas bochechas.
        - Est bem - disse Samuel. - Me traga outra banana frita.
        Se Samuel tinha preparado uma ltima frase, no teve tempo para diz-la. Morreu oito minutos depois de comer a banana, contorcendo-se em dores. Foi o nico 
que eu vi morrer. Acompanhei sua agonia paralisado, agarrado  borda da mesa, sem poder desgrudar os olhos do seu corpo em convulses sobre o meu parqu. Ver o Samuel 
morrer me curou de qualquer idia de tambm me deixar envenenar, de cumprir o ritual at o fim. Aquela histria tinha acabado. No sei por que eu tinha sido poupado.
        Talvez por isto, para ser o que sobrou para contar a histria. Quando os espasmos do Samuel cessaram, comecei a me levantar mas Lucdio me deteve com um 
gesto. Ele carregou o corpo at um dos meus sofs. Depois disse, enquanto comeava a limpar a mesa.
        - Chame uma ambulncia.
        - Ambulncia?
        - Vo diagnosticar um ataque do corao.
        - Mas a famlia dele...
        - Ele no tem famlia. No tem ningum.
        - Mas vo desconfiar...
        - Porqu?
        - Mais uma morte.
        - E da?
        Lucdio estava a caminho da cozinha. Sentei-me outra vez, atordoado. Depois dei um salto. A ambulncia. O telefone. Onde ficava o telefone? Estava na minha 
prpria casa e no sabia onde ficava o telefone. S descobri porque ele comeou a tocar. Guiei-me pelo som para encontr-lo. Era a Lvia. Para saber se eu tinha 
comido.
        - Comi, comi.
        - O qu?
        - O que o qu?
        - O que voc comeu, Zi?
        - Picadinho. Farofa. Banana.
        Lvia estranhou. Aquilo no estava entre os congelados que ela estocara na minha geladeira para a semana. Picadinho? Farofa? Banana?!
        - Vou at a, Zi. Voc parece estranho.
        - No! Com essa tempestade? Fique em casa.
        - Que tempestade?
        Olhei pela janela. No havia tempestade.
        - Eu estou bem. J vou dormir. Amanh a gente se fala.
        - Voc soube da Gisela?
        - No. O que houve?
        - Ela morreu.
        - O qu?! Como?
        - Parece que foi corao.
        - Corao? Com dezoito anos?
        - Pois .
        
        Lucdio se encarregou de contar o que tinha havido para o pessoal do socorro mdico. Eu no estava em condies de falar. Ns estvamos comendo e, de repente, 
Samuel levara a mo ao peito, e quando vramos ele estava embaixo da mesa. Tnhamos tentado reanim-lo, sem sucesso. No, no conhecamos sua famlia. Ele vivia 
sozinho. Quem devia ser avisado da sua morte? No tnhamos a menor idia. Quem se encarregaria das despesas com o sepultamento? Lucdio me consultou com o olhar. 
Fiz que sim com a cabea. E comecei a pensar no que podia vender, do meu apartamento, para conseguir o dinheiro.
        
        No velrio de outubro, do Samuel, s eu e o sr. Spector. Lvia no me acompanhou. No est mais falando comigo, desde que soube da morte do Samuel no meu 
apartamento. No adiantou eu jurar que fora mesmo corao, que no tinha nada a ver com os jantares, com a turma, com a loucura. O sr. Spector se aproximou discretamente 
e perguntou: "Cncer?"
        Respondi "Corao" e ele abanou a cabea e disse uma coisa que eu na hora no entendi:
        - Aposto que ele no se arrependeu.
        Combinei com o sr. Spector que ele me visitaria dali a dois dias, para conversarmos. Ele compreendia, aquele no era o momento, no era o momento.
        Depois de enterrar o Samuel peguei um txi e pedi para ser levado ao nosso velho bairro.
        Fazia anos que no ia l. Onde era o bar do Alberi agora tem uma locadora de vdeo. Fiquei na calada olhando para o prdio novo e tentando me lembrar como 
era o antigo. No consegui me lembrar. Peguei outro txi e voltei para a minha casa na rvore. Se eu fora poupado para lembrar, faria um pssimo trabalho. Por isso 
comecei a escrever.
        
        O sr. Spector comeou dizendo que ouvira falar da nossa "organizao" atravs de um amigo, e que o que ns estvamos fazendo lhe interessava porque vinha 
ao encontro de uma idia sua, na verdade no s sua mas de um grupo de pessoas que ele representava, entende? Um grupo.
        - O que ns estamos fazendo?
        - . No sei como se chamaria... Execues misericordiosas?
        - "Execues misericordiosas"?
        - Mortes dementes?
        -  "Mortes dementes"?
        - Prazeres terminais?
        - "Prazeres terminais"?
        - Como voc chamaria, dr. Daniel?
        - Como eu chamaria o qu?
        - O que vocs fazem, matando as pessoas com o excesso do que elas mais gostam?
        Ele interpretou meu silncio como precauo e se apressou a dizer que eu podia confiar nele, que tudo que acertssemos seria estritamente confidencial.
        - Sim. Hmm. Certo. Esse seu amigo... Eu posso saber o que ele lhe disse?
        - Na verdade  mais do que um amigo. E meu primo. Um mdico. Ele estava tratando de um paciente com cncer terminal que decidiu recorrer, digamos assim, 
aos servios da sua organizao. Que vocs mataram. Este meu amigo, primo, no aprovou, claro, se bem que ele no seja inteiramente contrrio ao conceito.
        - Conceito?
        - Da... eutansia festiva?
        - "Eutansia festiva"?
        - Retirada orgistica?
        - "Retirada orgistica"?
        - Estouro final?
        - "Estouro final"?
        - Apoteose compadecida?
        - "Apoteose"... Escute, o que, exatamente, esse cliente disse para o mdico?
        - Que vocs matavam pacientes terminais da maneira que eles quisessem. Com excesso de boa comida, com excesso de sexo, com excesso do que lhes desse przer. 
O Joo sempre fora um mentiroso.
        - E qual , exatamente, a sua proposta?
        - Eu represento um grupo de pessoas interessadas em participar dessa iniciativa.
        - O senhor representa um grupo de pessoas interessadas em investir na nossa, hmm, organizao?
        - No, no. Interessadas em contratar os seus servios. Interessadas em morrer nas suas mos.
        No sei que cara eu fiz, mas o Sr. Spector acrescentou rapidamente:
        - E dispostas a pagar bom dinheiro por isso. Adiantado, claro.
        - Claro.
        Pedi tempo para pensar. Precisava consultar os outros membros da, hmm, organizao. Nunca tnhamos pensado em expandir nossos servios daquela maneira. Fazamos 
o trabalho s para amigos. ramos quase uma espcie de clube, assim, da morte. Fabricvamos anjos, mas s anjos conhecidos, se bem que ningum que morria nas nossas 
mos, pedindo sempre mais, mais, podia ser chamado de anjo, o senhor compreende, precisamos pensar nos detalhes funcionais, nas conotaes morais, nas possveis 
implicaes legais, no  fcil. O Sr. Spector disse que compreendia. Ficou acertado que o Sr. Spector voltar amanh para saber a nossa resposta. Na sada perguntei 
se o Sr. Spector tambm era um doente terminal e ele disse que no, com um ar modesto. Apenas um intermedirio. Mas confessou que muitas vezes pensara na felicidade 
que seria poder planejar o prprio fim. Seria um pouco como olhar o fim de uma histria de mistrio antes de ler. Lia-se com mais inteligncia.
        Telefonei para o Lucdio, temendo que ele tivesse abandonado a cidade. Mas ele continuava no mesmo apartamento. No tinha a menor inteno de sair da cidade. 
O que significava que no tinha o menor medo de que eu revelasse tudo o que sabia sobre a sua terrvel vingana. Como ele tambm eliminou a Gisela, sei l como, 
e como no h possibilidade de eu denunciasse, pois estaria confessando minha cumplicidade no CaSo, s precisa esperar o tempo passar e as pessoas esquecerem o triste 
fim do Clube do Picadinho para abrir um restaurante com o dinheiro que sobrou da herana do Ramos. Falei da visita do sr. Spector e contei da sua proposta, esperando 
ouvir a risada do Lucdio. Mas Lucdio nunca ri. Ele perguntou se eu tinha certeza de que o Sr. Spector era mesmo o que dizia ser. Podia ser um inspetor, talvez 
estivesse fazendo uma investigao, talvez tivesse inventado aquela histria sobre o grupo que queria morrer de prazer porque sabia que eu gostava de histrias improvveis. 
Sugeriu que convidssemos o Sr. Spector para jantar e conversar sobre a sua proposta, amanh. E disse: 
        - Afinal, eu ainda no fiz o seu gigot d'agneau...
        
        Hoje, quando o Sr. Spector chegar, vou convid-lo para o jantar.
        Espero que ele tambm goste de ggot d'agneau. Cada vez que penso na sua idia, mais eu gosto. Se Lucdio topar, poderemos ganhar muito dinheiro.
        Eu preciso de dinheiro. Os Saint-Estphes esto cada vez mais caros e eu no tenho mais nada no apartamento para vender, a no ser os quadros do Marcos que 
ningum quer comprar. Com o Sr. Spector nos agenciando, trazendo clientes para as nossas apoteoses compadecidas, poderemos pensar em expandir o negcio e aproxima-lo 
da mentira que o Joo inventou para o seu mdico, do exagero do nosso contador de anedotas. Nos vejo no apenas matando doentes terminais com grandes jantares nos 
meus sales vazios mas organizando cruzeiros de moribundos pelo Caribe, excurses milionrias de casos perdidos pelas capitais da Europa, pelos antros de perdio 
da sia, pelos prazeres definitivos do mundo, proporcionando aventuras mortais, xtases finais, extremos fatais, orgasmos zenitais, congestes monumentais a quem 
quer mais, sempre mais, e mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais, mais... Daniel, chega!
        
        
        
        
        
FIM
        
